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Relações sobre o terrorismo e homem bomba

Sansão não é nosso herói!

Sua vida começou com tamanha promessa.  Ele era filho único de um casal estéril que já tinha perdido as esperanças de ter um filho.  Esse homem foi abençoado por Deus e dotado de um espírito poderoso e grande coragem.  No final, entretanto, ele teve uma morte violenta e controversa, suicidando-se e matando centena de pessoas em uma atitude final de vingança.  Seu nome era Sansão.

Somente sua história soa um pouco com algo que poderia facilmente aparecer nas manchetes de um jornal. “Homem bomba suicida explode no centro de Jerusalém”.  70 pessoas, mais o homem-bomba, morreram e mais de uma centena estão feridas.  Ouvimos esta história vezes demais nos últimos anos.  Esses são atos criminosos, pura e simplesmente ; atos que atingem civis inocentes e que são planejados para maximizar a morte e carnificina que causam.  São atos de homicídio e não simples atos de suicídio...

Eu me pergunto, no entanto, se Sansão foi realmente o primeiro terrorista suicida, acabando com sua vida para destruir seus inimigos.  Acorrentado ás colunas do templo pagão de Dagon, Sansão disse: “Deixem-me morrer com os filisteus...” “...e ele  empurrou com toda a sua força e a construção caiu sobre os nobres e sobre todo o povo que estava dentro dela”.  Realmente a Bíblia celebra tal ato de vingança?  Afinal, por que encontramos sua história no livro dos Juízes?  Como nossa tradição trata Sansão através dos tempos?  Parece que a linha entre Sansão e os homens-bomba suicidas não é muito difícil de ser traçada.

Curioso por ver como sobre este aspecto da Bíblia  é tratado, fiz uma busca, “Sansão e Suicídio”.  Espantei-me com a quantidade de web sites que existem analisando a história de Sansão e de fato tentam justificar este ato de suicídio e vingança.  Diversos escritores descrevem este ato como “ato de martírio e obediência a Deus”.  Um autor mulçumano comenta: “Em que os palestinos hoje diferem do que Sansão fez no passado?”  Aparentemente eu não fui a primeira pessoa a fazer a conexão entre Sansão e o terrorismo.

Mas eu reparei em algo muito interessante.  Enquanto havia  sites cristãos e islâmicos que pareciam interessados em entender o comportamento de Sansão, se não explicá-lo, virtualmente não encontrei nada escrito com uma perspectiva judaica.  O que os judeus fizeram de Sansão?  Os judeus não estão interessados no que sua própria Bíblia tem a dizer sobre Sansão?

Eu sugeriria que este silêncio virtual de nossa tradição no que diz respeito a Sansão não é de todo uma surpresa .  Sansão nunca foi considerado um grande herói judeu.  Ainda que a bíblia traga sua história, ela não celebra sua vida ou tenta justificar seus atos.  Simplesmente conta sua história.

O violento ato final de Sansão somente pode ser compreendido no contexto de sua vida estranha e difícil.  Desde o começo Sansão ele não desempenhou seu papel de “shofe”, não um juiz mas um comandante.  Ele viveu em um tempo sem lei e sintetizou a época em que viveu.  Estava mais interessado em usar seu tempo perseguindo mulheres filistéias e brigando com seus vizinhos não judeus do que interessado em ser um membro do povo judeu.  Um autor até mesmo o descreveu como um “assassino, um porco machista egoísta, um desordeiro impenitente de violência e vingança”.  É difícil discutir com esta descrição.

Então nós judeus não temos orgulho de Sansão.  E certamente não achamos que devemos justificar seus atos.

Sansão criou um círculo de violência e morreu dentro deste círculo.  Seus atos foram descritos não como guerrilha ou atos terroristas calculados, mas como o comportamento de um homem narcisista que cometeu atos de vingança pessoal.  Como resultado, a tradição teve pouco de bom a dizer sobre Sansão.  Os Rabinos reconhecem que o comportamento de Sansão nem resolveram nada nem redimiram o povo judeu.  A maioria deles desgostavam dos cruéis e violentos filisteus, os sábios não tinham orgulho do que Sansão fez.  Ainda que eles não pudessem ignorar a história, não sentiam necessidade de celebrá-la ou mesmo comentá-la.

Entretanto, nós nos preocupamos com o fato de no fim Deus ter permitido que Sansão cometesse um ato final de vingança. Aprisionado e cego por seus captores, ele reza a Deus no templo de Dagon: “Senhor Deus, lembre-se de mim, Eu rezo a Vós, fortalece-me somente mais uma vez... para que eu possa me vingar dos filisteus”.  Assim pode ser que Sansão não seja tão diferente dos terroristas palestinos, cujas palavras finais freqüentemente são: “Allah Akhbar”, “Deus é grande”.

A vingança de Sansão é a vontade de Deus?  Não creio.  Mesmo no final Sansão deixa claro que deseja vingar-se não pelas injustiças cometidas contra o povo judeu, mas pelos erros cometidos contra ele pessoalmente.  Os atos de Sansão são pessoais, atos egoístas de um homem zangado, nada mais, nada menos.  Não realizam nada.  E no final sua família vem e o sepulta sem fanfarra ou reconhecimento nacional.  Não há nada de relevante celebrando  o ato destrutivo de Sansão.

Entretanto, há um aspecto da vida de Sansão que traça um paralelo com o homem-bomba suicida.  É sua desesperança.  Para Sansão, quando não há mais esperança, ele não pode encontrar outra maneira de redimir sua vida vazia do que levar consigo tantas pessoas quantas puder.  E eu suspeito que o mesmo possa ser dito dos homens-bomba suicidas em Israel hoje.  Eles cresceram em uma atmosfera de desesperança.  E a única forma de transcender a desesperança é dar o que eles vêem como significado para suas próprias mortes.  A desesperança leva à fúria e cria a violência.  Para os jovens palestino que crescem em um campo de refugiados e não têm pelo que viver, morrer com a promessa religiosa de recompensa celestial é uma alternativa sensível.  Em outras palavras, a violência no Oriente Médio não cessará enquanto houver  desespero e desesperança.

Não é por acaso que lemos a história do nascimento de Sansão na sinagoga, mas nunca lemos sobre sua morte.  Foi uma vida trágica, uma vida de promessas não cumpridas.

Somente podemos rezar para que encontremos uma maneira para quebrar o círculo de violência e ódio de Sansão em nossos tempos.  Porque o mundo não pode se permitir viver com seus Sansões.

 

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