 |
Festas Judaicas e Healing |
As Festas Judaicas e o Healing
textos de Nancy Flam, Amy Eilberg, and Simkha Weintraub
Shabat
Tishá B' Av
Grandes Festas
Sucot
Simchá Torá
Pessach
Shavuot
Purim
Chanucá
As festas judaicas possuem um potencial de healing para aqueles com a vida atingida pela enfermidade. As festas e suas práticas podem tiras as pessoas de seu sofrimento durante um tempo e incluí-las no fluxo festivo da comunidade. Participar da comunidade pode abstrair a pessoa de sua própria história pessoal e situá-la na história mais ampla, coletiva, do povo judeu. Tais momentos podem proporcionar alívio, conexão e significado. Assim como uma distração mental podem proporcionar alívio da dor física, ser inserido na história coletiva de nosso povo pode chamar a atenção da pessoa para uma dimensão de vida que é mais ampla do que o próprio sofrimento, e mais forte do que a própria dor.
As se colocar no centro desta história, mesmo se apenas por alguns períodos por vez, uma pessoa pode adentrar a corrente da história judaica, poderosa e eterna. Sentir-se parte integrante de algo antigo, eterno e grandioso pode tirar a pessoa daquele momento de sofrimento. Pode ser reconfortante ficar no centro da natureza: ouvir e ver as ondas estourarem na praia; sentar ou passear no meio de uma floresta de sequóias centenárias. Do mesmo modo, a participação no ritual judaico pode ajudar uma pessoa a viver sua experiência como parte de algo amplo, importante, e duradouro, fazendo que a dor pessoal do momento seja amenizada. A pessoa lembra, no nível visceral, que faz parte de um “organismo” maior do povo, com suas próprias lutas e celebrações. Cada festa tem seu próprio significado histórico, costumes e atmosfera. São períodos de uma enorme afluência comunitária, em que cada pessoa espera poder entrar no espírito da festividade. No entanto, é exatamente por este motivo que as festas podem ser particularmente difíceis para qualquer pessoa que se sente fora de sintonia com a comunidade mais ampla. Pode ser difícil entrar no fluxo de celebração judaica e de vida comunitária quando estamos lutando com a perda e a enfermidade. As cerimônias religiosas podem acontecer tarde da noite ou cedo demais para quem precisa de conforto físico.
A atmosfera das festas pode ser de intensa alegria, enquanto o sentimento predominante no coração da pessoa pode ser de luto, solidão ou medo intensos. O sentido de isolamento pode, paradoxalmente, ser exacerbado quando se está rodeado de pessoas que parecem participar facilmente do fluxo de tempo judaico e de sua atmosfera. Oferecemos estas reflexões sobre o potencial poder de cura da prática religiosa, cientes das dificuldades que as festas podem apresentar, às vezes, para as pessoas que estão enfrentando doenças, mas acreditando que elas também podem oferecer um grande conforto e alimento espiritual.
SHABAT
Durante a semana, nós transformamos e manipulamos o mundo em uma miríade de formas: construindo, planejando, negociando, aconselhando. No Shabat, interrompemos nossos esforços para modificar o mundo. Ao invés disso, damos um passo para trás e abraçamos o mundo enquanto uma criação perfeita, tal como é. Mesmo que o mundo certamente ainda apresente os mesmos problemas no Shabat que apresentava no dia anterior, nós vemos o mundo com olhos diferentes.
Para a pessoa que convive com a enfermidade, esta perspectiva apresenta um desafio e uma oportunidade. O Shabat pode ser um dia para ressaltar o que está dando certo no nível físico e espiritual, para se dar conta de nossas bênçãos, para imaginar que mesmo no meio dos tremendos desafios de se viver com uma doença séria, às vezes, é possível se saborear a beleza da própria vida.
Neste dias, nos privamos do fazer; ao invés disso, nos concentramos em ser. Como Sylvia Boorstein escreveu em seu livro de meditação, nosso comando central neste dia deveria ser reconfigurado para: “Não faça Nada, Só Fique Sentado”. É um dia para respirarmos a totalidade da criação, e celebrarmos nosso ser.
Nancy lembra de uma mulher que lhe falou sobre sua vida nova como paciente de câncer. Embora estivesse se aposentando por invalidez, ela sentia como se estivesse trabalhando mais do que nunca. Ela se inscreveu em um programa de redução do stress baseado na meditação, começou a trabalhar com uma terapeuta de imagem, participava de um grupo de apoio de câncer e de um grupo judaico de apoio espiritual; ela estava reavaliando sua dieta e estava tentando saber o que o judaísmo poderia oferecer a ela para que fortalecesse seu espírito! Para esta mulher, o Shabat se tornou o dia em que ele não fazia nenhuma meditação, nem exercícios respiratórios, nem visualizações orientadas ou grupos de apoio. Ela fazia um intervalo em seu “trabalho” diário. Certamente, cada um de nós precisa compreender seu próprio meio de entrar no Shabat como num santuário no tempo.
Muitas pessoas que estão seriamente doentes tiveram que abrir mão de seus empregos e de outras responsabilidades regulares. Como o dia não é mais pontuado por revezamentos de caronas de escola, reuniões de negócios, almoços agendados, etc... as horas podem se suceder sem uma estrutura clara. Cada dia começa a parecer exatamente ao anterior. Em distinção por contraste, o Shabat pode apresentar uma estrutura e forma significativas para a semana. Pode oferecer orientação para a semana, e todos os outros dias da semana podem encontrar seu sentido em relação ao Shabat. Como o dia de uma conexão mais profunda com a família e a comunidade, o dia do estudo da Torá, ou o dia de se abster de atividades que se pareçam com o trabalho, o Shabat pode tranqüilizar e alimentar a alma.
Para aqueles que param de trabalhar nos empregos pagos, que reduzem suas atividades de cuidar de filhos, ou desistem de seus compromissos ou atividades sociais regulares, o Shabat é o dia da semana em que estarão sintonizados com o resto do mundo judaico. No Shabat, é uma mitzvá não ter a marcha acelerada. Enquanto que boa parte do mundo nos diz que somos inúteis se não produzimos, ganhamos dinheiros, não “contribuímos”, o mundo judaico nos diz que precisamos fazer exatamente o contrário no Shabat. As pessoas que convivem com doenças e que já aprenderam como ir devagar, como saborear pequenas bênçãos e como viver o momento podem ter muito a ensinar aos outros sobre a arte da observância do Shabat.
voltar ao topo ^
TISHÁ B'AV
Se Simchat Torah e Purim, datas de grande alegria e festividade no calendário judaico, podem ser os dias mais difíceis para aqueles (as) que estão vivendo a doença, a dor ou o pesar, Tish´a B´Av pode ser o mais fácil. Em Tish´a B´Av , nono dia do mês de Av, comemora-se a destruição do Primeiro e do Segundo Templos. Como tal, Tish´a B´Av passou a ser observado como um dia de luto coletivo, relembrando a perda do templo – lar espiritual e do centro comunitário. À medida que o tempo trouxe outras tragédias ao povo judeu, a tradição passou a associar tais tragédias coletivas a esta data, até que Tish´a B´Av tornar-se o ponto focal do luto comunitário acerca de todas as coisas que viemos a sofrer nas mãos de outras nações.
A tragédia particular que é o foco de Tish´a B´Av demanda maior reflexão para as pessoas que estão vivendo o luto e a perda. A perda dos Templos diz respeito à perda coletiva de um lar, perda de um centro, perda de unidade e de orientação coletiva. Na medida em que nós, como um povo, continuamos a nos voltar para Jerusalém – o centro de nosso universo – ao rezar, a perda de nosso lar espiritual nos deixa desolados e fragmentados. Como povo, nós nunca nos curamos totalmente dessas experiências traumáticas.
Muitos anos atrás, um clérigo cristão amigo meu, mudou para sempre a maneira pela qual eu entendia o verso do salmo 90:1: “Adonai ma’on Ata hayita lanu bedor vador”, “Oh, Deus, Você tem sido nosso Lar em todas as gerações”. Dizia ele: Você lembra de um desses outdoors colocados na estrada, anunciando um apartamento construído nas imediações? “Morando aqui você se sentirá em seu lar”. Meu amigo me disse essas palavras, apontando para o seu coração. Se você morar AQUI, no coração, não somente nas preocupações do dia-a-dia, mas em sua essência, em seu centro divino, você pode estar em seu lar a qualquer momento – no momento em que você respira ou a qualquer tempo em que se der conta da realidade de que está vivo (a).
A perda inevitavelmente nos desorienta, fazendo-nos perder o chão ou até mesmo arruinando o nosso senso de quem somos. Essa é a genialidade do ritual judaico do enlutamento, ao nos propor a reflexão profunda sobre nossas perdas, oferecendo espaço estruturado e seguro e tempo devotado à expressão da dor, apoio à comunidade, rezas e muito mais. Assim, quando o tempo aflitivo desse luto agudo começa a se aproximar, as rezas e rituais judaicos gentilmente nos relembram de que nosso verdadeiro lar nunca pode morrer ou nos ser tirado por qualquer circunstância externa. Enquanto vivermos, podemos, a todo o momento, voltar para o lar, para nosso centro, para esse lugar sagrado dentro de nós.
Texto extraído da palestra proferida pela rabina Amy Eilberg, na National Center for Jewish Healing Conference, 2003 e traduzido por Lisete Barlach
voltar ao topo ^
GRANDES FESTAS
O período das grandes festas é descrito na tradição judaica como os Yamim Nora’im, os Dias Temíveis. Estes dias são repletos de receio, pois refletimos tanto em nossos sucessos como em nossos fracassos do ano que se foi. Analisamos como nossa vida saiu do trilho, e ponderamos como poderíamos começar novamente no ano novo. Durante estes dias, refletimos sobre o nosso pequeno espaço no Universo, e no poder de Deus sobre nossas vidas. Pensamos sobre a vida e a morte, sobre nossa habilidade de afetar o curso de nossas vidas, e de nossa impotência diante de Deus ou do destino. Estas questões inspiram temor; os judeus reunidos na comunidade buscam força para explorar tais questões juntos.
Para aqueles que convivem com a doença e a perda, estas questões atemorizantes estão presentes a cada dia. Talvez as pessoas que estão doentes não precisem de um livro de oração que lhes fale sobre os mistérios da vida e da morte quando estão ocupados com visitas a médicos e decisões de tratamento, batalhas com a dor, medicações e solidão. Ainda assim, pode haver conforto ao reconhecer o quão profundamente ecoam as questões dos Dias Temíveis junto àqueles cuja vida é marcada pela doença e pela perda. Nesse período do ano judaico a comunidade estará refletindo sobre as mesmas verdades que permeiam os dias e as noites dos que estão enfermos. Nesta época, a comunidade judaica inteira ouve as mais lindas reflexões da tradição judaica quanto à vulnerabilidade humana e as possibilidades de uma vida sagrada. Neste período, a liturgia e o ritual judaico podem se relacionar diretamente à realidade das pessoas cujas vidas estão afetadas pela enfermidade e pela perda.
Durante os Dias Temíveis, cada um de nós se confronta com sua própria mortalidade. Cada um de nós reconhece a verdade de que nossas vidas são limitadas. Nas palavras da liturgia: “nós somos como uma flor que murcha, grama que seca, uma nuvem que passa.” Este confronto com a mortalidade pode levar a um sentido de medo, de desespero, e de tristeza extraordinária. Ao mesmo tempo, este reconhecimento pode nos motivar para que abracemos a beleza de nossas vidas, e para que façamos mudanças com o propósito de viver de foram verdadeira, correta e generosa o período que nos resta. Muitas pessoas que vivem cotidianamente enfrentando a mortalidade se encontram realizando a reflexão das Grandes Festas durante o ano todo: examinando suas vidas, fazendo correções, redefinindo prioridades, e vivendo com a consciência da preciosidade de cada momento. Às vezes, tal autocrítica pode levar a julgamentos desagradáveis sobre a pessoa, pois esta aumenta a consciência de suas imperfeições. É importante que as pessoas enfermas ou enlutadas se assegurem para que tal processo de introspecção não leve a um mea culpa excessivo. O objetivo das Grandes Festas, talvez como a própria jornada pela vida, é emergir na outra ponta como uma pessoa mais íntegra e espiritual, mais ciente da fragilidade e beleza da vida, e mais agradecida pelas bênçãos de uma vida.
voltar ao topo ^
SUCOT
Sucot é o alegre feriado de outono de congregação, de uma semana de duração, a época da colheita. Construímos moradias temporárias, chamadas de sucot, nas quais comemos, estudamos, comemoramos e até dormimos. A sucá é construída de tal modo para que não apenas nos ajude a recordar as experiências de nossos primeiros ancestrais, mas também nos ajude a cultivar certas percepções e atitudes religiosas. A sucá é construída para ser suscetível aos elementos naturais. Pelo menos três de suas paredes não podem ser “paredes” de verdade, que pertençam a qualquer construção comum permanente. Seu teto deve ser apenas ligeiramente coberto, de modo a que as pessoas possam ver as estrelas através dele. Ao habitar a sucá em meados de outono; a pessoa se sente mais próxima à natureza e mais consciente dos elementos; esta consciência certamente leva a uma apreciação mais apurada da colheita da Terra.
Ao mesmo tempo que a sucá enfatizar nosso sentido de gratidão, também enfatiza nosso sentido de vulnerabilidade. Ficamos expostos aos elementos, e mais cientes das forças físicas da natureza, forças que estão fora de nosso controle. Curiosamente, a sucá propõe-se a ser um sinal da proteção de Deus, mas sua própria estrutura quase não oferece proteção. Ao invés disso, a sucá nos fornece a lembrança de nossa vulnerabilidade fundamental. De certo modo, a lembrança da vulnerabilidade reside no âmago do significado espiritual de Sucot. Quando conhecemos profundamente nossa vulnerabilidade ao sofrimento físico, ficamos geralmente mais agradecidos pelas bênçãos que recebemos. Algumas pessoas se tornam conscientes desta vulnerabilidade de um modo mais cruel, com o choque de um novo diagnóstico, ou um acidente, ou via violência. Outros dentre nós precisamos cultivar uma percepção desta vulnerabilidade para que possamos ver a verdade de nossas vidas de modo mais claro e completo.
Para as pessoas cujas vidas são afetadas por doenças sérias, que gratidão há para se expressar, que sentido de abundância para se afirmar? Muitas pessoas, devido às doenças sérias, realmente despertam para as bênçãos em suas vidas. Nancy se lembra de uma mulher em um grupo de apoio espiritual judaico que havia sido diagnosticada com câncer ovariano e que falava constantemente do quanto ela era “afortunada”. Por causa de sua doença, ela sentia uma torrente enorme de amor e uma rede de suporte quase tangível de familiares e amigos, que ela nunca tinha sentido antes. Ela estava profundamente agradecida por este amor. Outro homem que havia sido diagnosticado com câncer começou a renovar sua relação com Deus, há tempos atrofiada. Sua vida se abriu em caminhos que lhe propiciaram significado e beleza. Ele disse que, se tivesse podido escolher, ele não teria escolhido viver sem a experiência do câncer, pois ela lhe havia propiciado tremendas bênçãos.
Avaliando o impacto da Doença
Nem todo mundo sente assim. Nancy se lembra de uma mulher que reconhecia que havia “crescido” e se tornado um ser humano mais profundo e sábio graças à sua batalha de trinta anos com o lupus. Ela declarou explicitamente que preferiria viver sem a doença e permanecer espiritualmente superficial. Ela expressa a opinião de muitas, muitas pessoas cujas vidas foram modificadas irrevogável e dolorosamente por alguma doença séria. Independentemente da posição de uma pessoa na vida, Sucot é o período, no calendário judaico, em que se ordena à pessoa que se alegre. Este chamado ao regozijo pode ser doloroso para aqueles que simplesmente se sentem incapazes de se alegrar no meio do sofrimento extraordinário que a vida trouxe. A sensação de ser diferente ou estranho na comunidade pode ser exacerbada quando toda a comunidade está se alegrando enquanto que a pessoa é incapaz de se juntar na celebração. Por outro lado, às vezes, acontece que estes ciclos e celebrações comunais têm a força e o efeito de nos extrair de nosso próprio sofrimento e de nos ajudar a nos unirmos na comemoração da comunidade. Quando isto acontece, nós podemos nos sentir gratos pela festa em si, que abre a porta para a alegria quem, de outro modo, estaria fechada para nós.
Em Pirkey Avot (Ética dos Pais) 4:1, nossos rabinos ensinam: “Quem é saudável? Aquele que está feliz com seu quinhão” Nós nos alegramos simultaneamente em nossas cabanas humildes e frágeis, e na morada vasta e eterna do Universo. Sucot nos ajudar a colocar no contexto nosso quinhão, a apreciar nossa porção de eternidade, a saborear nossa parte no todo, nosso elo na cadeia. Nossa sucá, o lugar de vulnerabilidade compartilhada, é onde aceitamos, exploramos, e até mesmo celebramos tanto nossa existência terrestre quanto nossas aspirações de divindade, nossa mortalidade e nossa importância infinita.
voltar ao topo ^
SIMCHÁ TORÁ
Segundo o calendário tradicional, Sucot dura sete dias. O oitavo dia é chamado de Shemini Atzeret (Oitavo dia de Assembléia). No nono dia, aparentemente, ocorre um feriado de outono final: Simchá Torá. Este nono dia foi originalmente acrescentado como um segundo dia de Shemini Atzerert para a Diáspora. (Em Israel, segundo o Judaismo Reformista e a maioria das comunidades reconstrucionistas, Simchá Torá acontece no oitavo dia, juntamente com Shemi Atzeret.) É o dia designado para se regojizar pelo recebimento da Torá, com sua sabedoria e orientação. O sentimento predominante de Simchá Torá é a alegria. Tanto na noite quanto na manhã, a comunidade realiza procissões entusiasmadas com a Torá, pela sinagoga e até mesmo na rua. As pessoas dançam com a Torá como se fosse com a pessoa amada. Geralmente, há uma aliá (Subida à Torá) especial para as crianças, incluindo-as na júbilo do dia.
Nos tempos talmudicos, o segundo dia de Shemini Atzeret era celebrado como o primeiro, exceto que a leitura da Torá específica era os dois últimos capítulos do Livro de Deutoronômio, que trata da morte de Moisés. Neste último dia de Shemini Atzeret, a comunidade judaica reconhecia que a alegria tem que terminar, que os incessantes meses escuros e frios do inverno estavam por chegar. A escolha da leitura da Torá, com sua ênfase na morte de Moisés, intensificava estas questões sazonais de perda. A partir dos tempos *****, o segundo dia de Shemini Atzeret havia se tornado um feriado per se, relacionado com o recém estabelecido ciclo de leitura da Torá. Ele se tornou o dia em que a maioria das comunidades judaicas terminava de ler a Torá, com a morte de Moisés, e começava a ler o Livro de Gênesis, com sua narração da criação do mundo. Deste modo, o novo feriado de Simchá Torá enfatizava não apenas as questões sazonais de perda, mas também as de renovação. Morte e medo justapostos à esperança e renascimento.
Estas questões podem ser profundamente ressonantes para as pessoas que passam a vida entre doenças sérias. Nancy se recorda de uma jovem mulher que recebeu o diagnóstico de câncer avançado de colón. No último ano e meio de sua vida, Marilyn sentia como se estivesse vivendo “em dois mundos”. De um lado, ela estava se preparando ativamente para sua morte. Ela comprou um talit para o Bar-Mitzvá de seu filho de três anos, que ela ia pedir para seu parceiro entregar a seu filho se ela não estivesse viva. Ela gravou fitas de vídeo para sua família, para que pudesse falar para eles sobre o que era mais importante para ela. Ela escreveu cartas para um círculo extenso de sua família para dizer o que cada um representava para ela. Ao mesmo tempo, ela buscava tanto tratamentos ocidentais quanto complementares alternativos. Ela se uniu a um grupo de apoio para viver sua vida plenamente. Ela saboreava o tempo que passava em seu jardim e o tempo em que tinha que ser mãe de 24 horas, depois de anos equilibrando-se entre sua vida profissional e caseira. Ela fez planos do que iria realizar a seguir com seus muitos talentos. Marilyn vivia em dois mundos; ela equilibrava a realidade de cada um.
Para muitas pessoas com uma enfermidade que é debilitante, mas não ameaça a vida, a justaposição da morte e criatividade pode ser menos absoluta.Ao invés disso, a pessoa vive com constantes “mortes” menores, embutidas em uma vida de incapacidades, a perda da capacidade de previsão de como será cada dia, e das tarefas que a pessoa será capaz de realizar; a perda da independência; a perda de relacionamento; a perda de capacidade de ser compreendida pelos outros; e assim por diante. Justapostas a estas perdas estão as oportunidades para a criatividade, para a alegria, e para a significância que cada pessoa deve encontrar para tornar a vida sagrada. A morte de Moisés, a inevitabilidade da mortalidade, o temor dos israelitas de viver sem uma orientação clara, e a possibilidade da nova vida nos são presenteados em Simchá Torá como questões para análise. Nesta festa, a comunidade toda sente as justaposições impressionantes, sagradas, aterrorizantes e reais da morte e renascimento, da perda e esperança.
voltar ao topo ^
PESSACH
O elemento histórico de Pessach no faz recordar de nossa história central como povo: a jornada da escravidão para a liberdade. Esta história judaica sagrada tem como propósito nos afetar de várias maneiras – literalmente, como um evento histórico; profeticamente, como uma indicação da redenção futura do mundo, e metaforicamente, como a jornada central da vida espiritual. Em nossos exaustivos preparativos e durante a semana completa da festividade, nós meditamos sobre o significado da libertação.
voltar ao topo ^
Karpas
A verdura na bandeja do Seder (em hebraico, karpas) simboliza o renascimento da primavera, e o nascimento do povo judaico. É o símbolo de esperança e regeneração. Sendo assim, como é chocante o modo de comer o karpas, mergulhando-o na água salgada, um símbolo de dor e lágrimas. A água salgada nos faz recordar a dor que o povo judeu sofreu na escravidão, e em sua jornada para a liberdade e renascimento. Ao mergulharmos as novas verduras na água salgada, nos recordamos que nosso renascimento envolve dor.
David Spiegel escreve que “beleza e tragédia estão inexoravelmente entrelaçadas nas pessoas com doenças sérias.” Ao mesmo tempo que a vida se torna mais difícil, ela geralmente se torna mais linda e doce. As pessoas convivendo com doenças sérias geralmente experimentam uma mescla de sofrimento e benção. No Seder, existem várias situações em que combinamos um sentido de agradável e de dificuldade: aqui, com o karpas e a água salgada; ao comer a raiz forte amarga e o haroset doce (uma mistura de maçã, nozes e vinho, simbolizando a argamassa de tijolos que os escravos faziam); ao comer a matzá, que é ao mesmo tempo algo muito simples “o pão da pessoa pobre”, feito apenas do básico, água e farinha, mas que é nosso símbolo da libertação; e mesmo ao tomar as quatro taças de vinho, que são nosso símbolo de felicidade e alegria, mas que podem facilmente se tornar a fonte da falta de moderação e do vício.
Muitas vezes, extraímos bênçãos a partir de circunstâncias de dor. Ao mergulhar a salsinha na água salgada, você pode querer perguntar às pessoas reunidas na mesa Seder para que compartilhem em voz alta ou para que reflitam. Silenciosamente sobre os despertares e renascimentos que experimentaram no rastro de alguma dificuldade.
Este é o Pão da Aflição
A Matzá é chamada de “pão da aflição”. No início da refeição do Seder, nós nos levantamos e convidamos todos que estão famintos para que se unam a nós nesta refeição cuja peça principal é o pão da aflição (mas que convite!). Ao fazer isso, nós lembramos que todos nossos antepassados comeram este pão porque estavam em um “aperto” ( um modo de jogar com a palavra hebraica para Egito, Mitzraim; metzar é a palavra para um local estreito). Consideramos que nós mesmos éramos anteriormente escravizados, comemos este mesmo pão, e então conhecemos a libertação. “Em cada geração, toda pessoa é obrigada a se ver como se realmente tivesse saído do Egito.” A essência do Seder é que nós sintamos, provemos, e nos coloquemos nas almas de nossos antepassados, sentido sua dor e seus anseios, experimentando sua libertação em nossos corpos e nossas almas. Nós compreendemos a aspiração universal de sair do cativeiro físico e espiritual para a liberdade.
O Zohar não chama a matzá de pão da aflição, mas basicamente de “Lahma lla’ah”, o pão celestial. Este mais simple dos pães, simplesmente de farinha pura e água, plano como uma taboa, é o sustento fundamental, celestial. Talvez isto ocorra porque, ao comê-lo, somos lembrados de que não precisamos muito para manter nosso sustento. “As benesses do Egito” eram atraentes, mas o anseio dos israelitas pelas mesmas no deserto obscureceu o fato de que eles, na verdade, eram eficazmente abastecidos no deserto. Circunstâncias extremas, às vezes, podem nos ensinar a verdadeira fonte do alimento.
Geralmente, também foi observado que as três letras constantes nas palavras “chametz” e “matzá” são virtualmente idênticas; de fato, para torná-las exatamente iguais, basta uma mancha mínima de caneta. Quão próximas podem ser a saúde e a doença, o bem estar e o sofrimento. Um sopro no destino pode transformar uma realidade na outra. Talvez isto também deva nos fazer lembrar a vulnerabilidade compartilhada por aqueles rotulados de “doentes” e aqueles considerados “bem”, e nos ajude a reconstruir um mundo em que barreiras inúteis possam ser quebradas e todas as pessoas permitam que as outras possam encarar as apreensões da mortalidade com um sentido aguçado de comunidade e relacionamento.
voltar ao topo ^
Dayenu
É fácil enfatizar o que não temos, o que ainda precisamos, o que Deus não nos deu. É mais difícil olhar tudo o que sim temos, como somos atendidos, os modos pelos quais Deus nos abençoou. No meio de grande dor ou perda, é especialmente tentador se concentrar apenas na privação.
Na mesa de Seder, como observamos, nos colocamos em algum lugar entre a escravidão e a libertação. “Daieinu” no faz focalizar os modos nos quais fomos libertados, e expressa o êxtase e a satisfação em cada ponto do caminho da escravidão à liberdade. “Daieinu” é uma meditação baseada na gratidão e a saciedade. “Daieinu” serve para desafiar nossa abordagem habitual de nossas vidas, de que não temos o suficiente (suficiente do que seja: dinheiro, notoriedade, sexo, poder, amigos, amor, talvez até saúde); “Daieinu” nos pede para que reexaminemos nossas vidas para que, pelo menos uma vez, nós possamos dizer “Nos basta”.“Daieinu” lista detalhadamente todas as bondades que Deus concedeu ao povo judeu ao deixar o Egito, exclamando a todo passo que cada passo, por si só, teria bastado.
Ao mesmo tempo, nós podemos perguntar se, de fato, teria realmente sido suficiente se deus, por exemplo, abrisse o mar mas não nos guiasse através das terras áridas? Ou se Deus tivesse permitido que atravessássemos o mar mas não nos fornecesse o maná por quarenta anos? Será que é mesmo possível agradecer Deus por cada momento, mesmo quando a “história completa” não se desenrole como idealmente gostaríamos? Podemos agradecer a Deus pelo amor da família e dos amigos mesmo quando não encontramos um dedicado parceiro de toda a vida que esperávamos encontrar? Podemos agradecer Deus pelos cinqüenta anos da vida de nosso amado mesmo se achássemos que ele deveria ter a benção de oitenta? É extremamente difícil glorificar a gratidão em meio à decepção. E mesmo assim, de algum modo, esta parte do Seder nos incita para que vivamos o momento de cada benção, sem expectativa de uma benção futura ou de uma maior realização.
Nancy se recorda de uma mulher que descreveu sua vida com seu esposo como uma “conversa interminável”. Seu marido, no entanto, morreu de um câncer violento quando seu filho tinha apenas três anos. Eles haviam sonhado assistir o filho crescer, ter outros filhos, aperfeiçoar os aspectos de seu relacionamento através do tempo. Esta mulher ficou devastada com a morte de seu ente amado. E mesmo assim, ainda durante o primeiro ano de luto, esta mulher foi capaz de dizer: “Nós fomos especialmente abençoados. Não apenas porque tínhamos algo tão especial, mas porque sabíamos o que tínhamos. Durante toda nossa vida em conjunto, tínhamos consciência da incrível benção de nosso amor e comunicabilidade. Sou agradecida por isso.”
voltar ao topo ^
Quais são as perguntas?
Dra. Tamara Green PhD.
Membro Fundadora do National Center for Jewish Healing e
Catedrática do Departamento de Literatura Clássica do Hunter College, New York City
Quando eu era criança, as quatro perguntas entoadas no princípio do seder de Pessach me deixavam extremamente perplexa. Ah, eu as entendia facilmente, em seu modo mais literal, mas sempre me parecia não haver lugar algum na Hagadá que respondesse de forma direta a essas perguntas. Foram necessários vários sedarim antes que percebesse que as perguntas não eram tão óbvias como eu outrora julgara, e que, a cada ano, elas podiam provocar respostas distintas, e que nem todas as respostas tinham sua fonte na Hagadá.
Por outro lado, mesmo ainda criança, as perguntas indagadas pelos arbá banim - os quatro filhos – pareciam suficientemente simples. Afinal de contas, toda criança sabe como fazer muitas perguntas e, até no meu limitado círculo de amigos e conhecidos, eu conhecia inúmeras crianças que eram sábias ou tolas ou ingênuas, e até mesmo algumas que me pareciam perversas. (obviamente, em me colocava na primeira categoria). Foram necessários vários sedarim antes que percebesse que as perguntas poderiam ter respostas diferentes a cada ano, mas também que a pergunta que cada criança indaga poderia ser refletida por minha luta para extrair sentido do modo em que minha doença afeta minha vida judaica. O que descobri na mesa do seder é que, mesmo hoje, sou tanto a criança sábia quanto a perversa; sou tanto a criança ingênua quanto a criança que não sabe perguntar.
Às vezes, sou a criança sábia. A criança sábia pergunta: “Quais são as leis e regulamentos que Adonai comandou que observássemos?” Embora a Hagadá declare meramente que deve-se ensinar a esta criança todas as leis de Pessach, a Torá acrescenta que estes mandamentos são observados para o nosso próprio bem, para que possamos nos recordar que Adonai nos trouxe para fora da escravidão até a terra prometida. Assim, eu pergunto: o que Adonai comandou a mim? Será que minha enfermidade tornou-se meu Egito pessoal e haverá alguma sabedoria que a dor e o sofrimento tenham me trazido? Eu não sei. Será para o meu próprio bem? Espero que não.
Às vezes, sou a criança perversa. A criança perversa pergunta: “O que este ritual significa para vocês?” Os rabinos acrescentam: “Para você e não para ela.” Muitas vezes, eu quero dizer: “Deixem-me em paz com meu sofrimento.” Serei eu então deixada parada sozinha às margens do Mar Vermelho, temerosa de que eu me afogue e desapareça completamente? Como encontro a coragem para dar o primeiro passo e adentrar o espaço que Adonai criou para mim? Eu não sei. Será que minha raiva diante da dor me isola da comunidade e, portanto, me torna perversa? Espero que não.
Às vezes, sou a criança ingênua. A criança ingênua pergunta: “O que significa tudo isso?” E os rabinos respondem: “Com mão forte Deus libertou o povo judeu do Egito, da casa da escravidão". Onde está minha libertação da dor? Haverá algum motivo para que isso tenha acontecido comigo? Espero que não. Serei eu capaz de ver a mão estendida de Adonai e de sentir a Presença Divina? Espero que sim.
Às vezes, sou a criança que não sabe perguntar: “quanto à criança que não sabe perguntar, você deverá levá-lo ao processo do aprendizado, ensinando-lhe: "Faço tudo isto por causa de tudo o que Deus fez por mim quando me tirou do Egito".” Como começo a buscar a liberdade deste meu espaço estreito particular? Será que consigo formular os pensamentos ou dar voz às palavras que me ajudarão a encontrar o caminho? Estará Adonai presente nesse lugar? Espero que sim.
Pelo menos, eu me lembro que há questões a serem indagadas e, por enquanto, é o suficiente.
topo
SHAVUOT
Apesar de Shavuot ser uma festa independente – um dos shalosh regalim (três feriados de peregrinação) – em um outro sentido, Pessach e Shavuot estão integralmente relacionados. Algumas obras da literatura rabínica referem-se a Shavuot como “Atzeret”, significando fechamento; Shavuot fecha o período de cinqüenta dias que se inicia em Pessach. A fuga da escravidão só é completada com a doação da Torá, que dá aos israelitas orientação sobre como viver enquanto povo livre, em relacionamento com Deus. A liberdade física se torna significativa apenas quando abraçada à liberdade espiritual.
As pessoas que convivem com doenças sérias geralmente acham que sua doença cria uma prisão tanto física quanto espiritual; a limitação e falta de liberdade se aplicam em cada mundo. Às vezes, mesmo quando alguém não está m,ais enfermo fisicamente, o resíduo da raiva, desapontamento, e a falta de confiança persiste. Embora o corpo se cure, o espírito ainda sofre. Alternativamente, pode acontecer que o corpo não se cure, mas a alma se abre, cresce, e encontra significância. No Judaísmo, tanto a cura do corpo quanto a cura do espírito são importantes, e juntas compreendem o que a tradição chama de “cura plena”.
Nancy se recorda de uma mulher, Jane, que conviveu com uma doença crônica por vinte anos. Ela foi ficando progressivamente uma pessoa dura, amarga, brava. Até o ponto em que ela conheceu um homem por quem se apaixonou profundamente. Os dois criaram uma linda relação de alegria e celebração. Alguns meses mais tarde, quando Jane compareceu à sua consulta regular com a terapeuta, a terapeuta notou como seu espírito havia recebido uma grande cura. “É, mas eu estou doente!” Jane retrucou, perfeitamente consciente de sua luta diária com a doença. Sua terapeuta observou: “Sim, você está. Mas sabe, o healing verdadeiro é aquele do espírito.” Jane ficou lívida. Como alguém ousava dizer que o verdadeiro “healing” não era físico!
Jane soube instintivamente que seu judaísmo lhe dizia outra coisa, que tanto o corpo quanto o espírito são importantes. Numa conversa subseqüente, Jane contou á Nancy que desprezar a importância do healing físico parecia não apenas falso, mas também antiético. Se ela assim o fizesse, ela iria se voltar para dentro e se concentrar apenas em si mesma, e no healing de seu próprio espírito. Ela não queria se concentrar apenas em suas lutas. Ela talvez não pudesse encontrar sua cura, mas ela com certeza queria continuar a dar tzedacá para pesquisa, para que outros pudessem ser poupados do tipo de sofrimento que ela conheceu.
A jornada de Pessach até Shavuot conecta a liberdade física com a liberdade espiritual, e nos dá a oportunidade de pensar na relação entre as duas.
voltar ao topo ^
PURIM
Purim acontece no início da primavera, exatamente na época em que as pessoas que passam pelo inverno com dificuldade estão fartas do frio. O confinamento do inverno explode em uma comemoração do início da primavera cheia de energia e vida. Há uma sensação de Carnaval em Purim, ao comemorarmos a absoluta surpresa e alegria da salvação de nosso povo. Segundo o livro de Ester, a população inteira de judeus na Pérsia foi quase aniquilada. O povo jejuou, implorou, e estava profundamente inseguro quanto à própria sobrevivência. No último momento, a mesa virou: os judeus foram salvos, e seu inimigo inquestionavelmente derrotado. A elação, a alegria e a vertigem da festividade advêm do desastre evitado à vigésima quinta hora. É o acidente de carro que milagrosamente não fere os envolvidos, o tumor que acaba sendo benigno, o assaltante que não atira. A extrema ansiedade se transforma em alívio existencial, e busca sua expressão. O fazer barulho, beber excessivamente, e o comportamento rufião expressam o alívio no centro da festividade.
Para a pessoa convivendo com uma doença séria, estes tipos de momentos podem acontecer. Existem horas em que se conhece um tremendo alívio repentino, ou quando os exames resultam negativos. Para outros, o alívio vem de forma menos dramática, mas não menos verdadeira: quando um amigo ou membro da família expressa amor e conforto; quando as lágrimas irrompem e propiciam a catarse; quando a pessoa reconhece que ainda tem capacidade de alegria e significância. Dado o acúmulo de ansiedade profunda, de stress, de preocupação, é importante vivenciar momentos de alívio sempre que tornem disponíveis. Para muitos, mesmo após momentos de grande liberação, a preocupação e a ansiedade voltam, mas pode ser extremamente útil aliviar o stress sempre que puder, e de qualquer forma possível.
Nancy se recorda de uma mulher que sofria terrivelmente com a perda de seu parceiro. Após alguns meses, todas as pessoas do mundo de Jeanne pareciam voltar às suas vidas regulares, impacientes para que a amiga evoluísse em seu luto. Jeanne sofria demais, não apenas com a perda de seu amado, mas também com a perda de atenção e carinho que precisava de seus amigos. Apesar disso, ela percebeu que o que seus amigos poderiam oferecer era o gosto da vida “normal”: sair para jantar, ver shows, ouvir boa música, etc. Assim, ela disse a si mesmo que iria sair com seus amigos, sem esperar que eles escutassem sua história de perda e dor. Ao invés disso, ela iria utilizar tais momentos como um escape e um alívio de seus sentimentos de solidão e dor. Ela iria sair e se divertir, profundamente aliviada pela oportunidade de se deixar levar.
Purims Pessoais
Muitas pessoas não têm conhecimento do costume tradicional de se celebrar Purims especiais para agradecer o fato de conseguir escapar de um perigo sério. O Talmude diz que deveríamos visitar o local onde experimentamos um salvamento milagroso de um perigo para lá oferecer uma benção. (B.Berachot 54a.) Muitas famílias e comunidades judaicas adotaram este costume para lembrar algum episódio milagroso em sua própria história, assim como a comunidade judaica inteira se reúne para lembrar do salvamento milagroso dos judeus, como foi registrado no Livro de Ester. Estes Purims especiais são marcados pela narração da história do salvamento, geralmente a partir de um pergaminho enrolado como uma meguilá, além de doação de caridade, organização de uma refeição de comemoração, e uma celebração de alegria. Imagine o poder de se reunir regularmente para recontar sua própria história de salvação entre amigos e familiares, em um contexto de profunda gratidão.
Uma amiga e colega nossa, rabina Nancy Wechsler, tinha trinta e seis anos quando foi atropelada por um táxi em New York. Ela sofreu traumatismo craniano grave, perdendo a visão de um olho, seu sentido de olfato, e sofreu uma desfiguração importante. Foram necessários vários anos antes que ela sentisse que poderia integrar a experiência de seu acidente em sua história de vida. Ela escreve sua experiência em seu diário:
Nasci em Nove de Janeiro, mas eu considero o dia Primeiro de Maio como meu renascimento. É meu Purim pessoal. Em Primeiro de Maio fui levada ao meu limite e recebi um roteiro para uma nova experiência. Sendo assim, cada vez que visito Manhattan, eu presto homenagem com um piscar ou um pensamento silencioso para minha esquina sagrada, o local de meu renascimento.
Alguns anos mais tarde, ela escreve:
Eu visitei minha esquina hoje, é a 23 com a Lexington, ao deixar uma reunião da CCAR, eu andei em direção à mesma. Sinto-me tão pequena hoje. Vi algumas cores verdes e percebi o quanto é bom enxergar. Eu olhei pela janela, um aumento do verde. Eu estava usando um paletó verde claro em Primeiro de Maio quando fui atingida por um táxi. Outro dia, na escola, eu usei uma jaqueta verde brilhante e hoje estou usando uma camiseta verde brilhante. Não tenho mais medo do verde.
voltar ao topo ^
CHANUCÁ
As pessoas que convivem com a doença e a dor geralmente sentem que a escuridão sobrepujou a luz. Existem épocas em que a pessoa teme nunca mais ver a luz, sente que está numa longa descida para a escuridão total. Nestas horas, a representação de Chanucá pode ecoar diretamente a realidade da vida, e o ritual de trazer luz na escuridão pode ser exatamente o que se precisa.
Chanucá é a festa da celebração da luz, esperança, e fé durante períodos negros, através de um ritual projetado para alimentar nossa fé e renovar nosso espírito, mesmo se o mundo à nossa volta e internamente nos indique o desespero.
Milagres e Maravihas
Para muitos judeus contemporâneos, a noção de milagres é difícil. Muitos de nós acreditamos em um Deus antropomórfico que intervém, de modo semelhante ao manipulador de fantoches, em assuntos humanos, e então, curiosamente, não é envolvido em outras épocas de necessidade. Podemos associar “milagres médicos” com a retórica supersticiosa dos curadores da fé ou promessas inacreditáveis de alguns praticantes do Healing New Age, que parecem defender uma cura mágica particular do que nos aflige.
Apesar disso, há outras maneiras de se pensar sobre milagres. Conhecemos pessoas que vieram a pensar em milagres de um modo muito mais imediato e real precisamente em meio às suas lutas com a doença e o luto. O segredo é pensar pequeno. Às vezes, diante de uma grande dor, as pequenas bênçãos da vida começam a se revelar como milagres. Amy se recorda de uma mulher lutando contra uma doença crônica com risco de vida que começou a vivenciar os pequenos milagres da vida de um modo lindo. Às vezes, o calor do sol brilhando através de sua janela parecia um milagre para ela; às vezes, ser capaz de tomar seu banho de chuveiro completo e respirar confortavelmente era um milagre; às vezes, tocar a mão de seu neto era um milagre. E, embora existissem dias em que a vida era mais fardo do que benção, havia dias em que apenas acordar viva era um milagre. Conforme a vida espiritual desta mulher foi se transformando, outro milagre foi desvendado: pela primeira vez em sua vida, um círculo de pessoas a rodeava de amor.
A história do milagre de Chanucá, então, não é apenas coisa de criança. É um convite para que todos nós abramos nossos olhos para a possibilidade de que milagres realmente acontecem. Ocasionalmente, estes são os milagres escritos na tela da história. Estes são os milagres quase inegáveis aos quais o sidur se refere quando nos pede, durante a semana de Chanucá, para que agradeçamos Deus “al hanissim, vê’ al haguevurot ve’al há teshuot,” “pelos milagres, maravilhas e triunfos e vitórias” vivenciados por nossos antepassados naquela época. Mais uma vez, a oração enfatiza que tais milagres aconteceram “bayamim hahem bazeman hazé”, naqueles tempos antigos, e também, muito possivelmente, em nossos dias também.
O ciclo de festas nos traz uma rica colcha de reflexões sobre questões centrais nas vidas das pessoas convivendo com enfermidades. Nas formas da oração e do ritual judaicos consagradas através dos tempos nós encontramos reflexões sobre temas que ecoam na alma, geralmente de forma especialmente pungente, quando a vida nos trouxe doença e sofrimento. Em alguns casos, as festas afirmam, de forma poética, o que as pessoas que convivem com a doença sabem bem; em outros, as costumes das festas oferecem àqueles que sofrem uma oportunidade de integrar imagens de cura. No todo, a observância das festas pode disponibilizar momentos ricos de celebração e conexão com o Eterno. Que estas práticas possam trazer conforto para os que precisam, e que possamos todos ser abençoados pela sabedoria imortal de nosso povo.
Rabi Nancy Flam é co-fundadora do Jewish Healing Center. Ela dirige atualmente o Instituto de Espiritualidade em Metivta, um programa de ensino para líderes judeus baseado em retiros.
Raby Amy Eilberg é orientadora pastoral em seu consultório particular em Palo Alto, na Califórnia. Ela escreve, leciona e presta consultoria sobre questões de espiritualidade judaica e healing.
Rabi Simkha Weintraub ministra como Diretor Rabínico do New York Jewish Healing Center – Centro Judaico de Healing de New York- e do National Center for Jewish healing – Centro Nacional Para Healing Judaico, duas divisões do Jewish Board of Family and Children Services – Conselho Judaico para Assistência à Família e Crianças. Rabi Simkha editou o primeiro livro do Centro de Judaico de Healing, Healing of Soul, Healing of Body(Cura da Alma, Cura do Espírito).
Este artigo foi extraído do livro The Jewish Book of Healing (O Livro Judaico de Healing), de Rabi Nancy Flam e Rabi Amy Eilberg (sugerido pela Jewish Publication Society).
Tradução: Liliana (Lica)Tal
voltar ao topo ^
topo