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A Micvá como Terapeutica Atividades

A Micvá como Terapêutica
por Elyse Goldstein do CCAR Journal:
A Reform Jewish Quarterly, inverno, 1995

Os encantos e a popularidade dos ritos tradicionais no movimento judaico reformista têm aumentado dramaticamente nos últimos anos. Um desses ritos, que está se tornando cada vez mais aceito e procurado, é o uso voluntário da mikva, tanto por mulheres como por homens. E curioso assinalar que em 1893 o Judaísmo Reformista afirmava que a tevilá era desnecessária para a conversão. O novo manual dos Rabinos, contudo, contém a seguinte afirmação: "Reconhecemos que existem valores sociais, psicológicos e religiosos associados aos ritos iniciatórios tradicionais, e por isso recomendamos que o Rabino discuta com os candidatos à conversão as questões da halachá relacionadas ao brit milá, ao hatafat dam berit e à tevilá, e oferecer-lhes a oportunidade de observar esses ritos."

O rito da mikva pode trazer grande satisfação às pessoas que se convertem ao Judaísmo, assinalando as suas mudanças internas e ritualizando-as em uma forma física, externa, que eles podem ver, ouvir e sentir.

A Mikva como Instrumento Espiritual

Existem ocasiões especiais em que as propriedades de limpeza espiritual da tevilá podem ser utilizadas para nosso beneficio pessoal. Nos últimos dez anos presenciei, por diversas vezes, a grande emoção demonstrada por judeus que experimentaram a mikva, e por isso tentei refazer essa experiência com algumas pessoas, em circunstâncias especiais.  

Eu mesma passei por essa experiência e senti o seu poder transformador. A primeira vez que entrei na mikva foi logo antes de ser ordenada como rabina. Queria sentir-me limpa, à medida que me aproximava daquilo que era para mim - e ainda é - um grande apelo espiritual. Eu sabia que o dia da ordenação seria emocionante, mas também público e confuso, por isso eu queria ter um momento totalmente íntimo para preparar-me. Como eu ainda não era casada, a administradora da mikva hesitou muito em deixar-me entrar, mas eu a convenci que eu era de forma indireta, uma noiva! Usei de novo a mikva após o sheloshim da minha irmã. O período de luto e o meu próprio sofrimento foram tão intensos que eu queria um outro ritual igualmente intenso para reentrar na minha vida normal.

Como rabina, procurei oferecer este tipo de experiência espiritual aos membros da minha Congregação, independentemente de conversões, ou das problemáticas situações de mulheres e nidás. Uma mulher da minha Sinagoga foi estuprada por um trabalhador que ela havia chamado para fazer consertos em sua casa. Era uma mãe solteira, emocionalmente muito frágil. Após o estupro ela procurou um psicoterapeuta, mas mesmo depois de vários meses ela continuava sem progredir, sentindo-se "impura". Seu terapeuta, que não era judeu, conhecendo o seu envolvimento na Sinagoga, e percebendo que esse envolvimento lhe trazia segurança, perguntou-me se havia um rito judaico que pudesse remover esse sentimento de impureza. Sugeri a ele que a mikva poderia ser, ao mesmo tempo, um símbolo e um instrumento efetivo para limpar o seu corpo e a sua alma. Fizemos a experiência em uma calma tarde de primavera. O terapeuta, eu e esta moça entramos juntos na mikva, rezamos juntos pela integridade e pela pureza, e ela imergiu. Embora a mikva não seja mágica, seu terapeuta me comunicou que o rito judaico reduziu a sua sensação de humilhação e impureza e foi de grande importância para o sucesso da sua terapia, para fazê-la reassumir o seu trabalho e para fazê-la voltar a contatar seus amigos e a sua família, com coragem e em paz consigo mesma.

Desde esse acontecimento, meu próprio uso da mikva, bem como o seu emprego por outros rabinos com quem conversei, tem produzido resultados positivos na grande maioria dos casos.

Alguns psicoterapeutas e conselheiros espirituais judeus, compreendendo as ligações entre a sexualidade, a espiritualidade e a pureza, estão utilizando a mikva para ajudar os seus clientes, ou os encaminham ao rabino para que o façam. As recomendações para a mikva incluem o estupro, o incesto, a infidelidade matrimonial e a reconciliação, a infertilidade, o aborto espontâneo, o final do período de luto, a menopausa, as cirurgias invasivas, os aniversários de eventos importantes, os momentos de crise e as grandes mudanças na vida.

É lógico que a mikva não substitui a psicoterapia. Não é vodu. Não é capaz de trazer fertilidade ou boa sorte, e não pode mudar personalidades nem situações. Não pode curar problemas profundos. Não é uma solução rápida para nada, mas é um rito que pode desempenhar um papel significativo no processo de cura. Provavelmente o seu apelo é essencialmente simbólico, como diz o psicoterapeuta Yonah Klem, "um banho totalmente diferente de todos os outros banhos”.

O mais importante no processo é a decisão de criar um evento que tenha significado e um comportamento que torne esse evento algo fora do comum. O planejamento, a preparação e a espera do evento são todos importantes. Na nossa casa o banheiro é familiar, a água flui naturalmente das torneiras.  

O simples fato de deixar a familiaridade do lar para tomar um banho em um banheiro diferente, e depois imergir totalmente nas águas naturais de uma pequena piscina totalmente diferente de todas as outras, faz com que as pessoas sintam que experimentaram algo mais significativo do que um simples banho.

Como qualquer rito, o uso da mikva como instrumento espiritual requer preparo e criatividade. E requer, também, uma nova liturgia para acompanhar a cerimônia, criando uma atmosfera de apoio. É importante, também, que o rabino acredite que o que vai acontecer é mais do que um simples banho.

O Rito

O texto que tenho usado é o de Ezequiel 36:25-26: "y'zaraktí aleichem mayim t'honm ut'hartem: Borrifarei água limpa sobre ti e ficarás limpo... Dar-te-ei um novo coração e um novo espírito..." Peço ao participante que escreva alguma coisa sobre os motivos pelos quais ele ou ela vieram à mikva, e qual é a sua kavaná, qual é o seu objetivo. O participante pode escolher, inicialmente, cantar um nigun, ou ler um poema, ou permanecer em silêncio. Ele pode trazer uma pessoa querida ou entrar somente com o rabino, ou com uma testemunha do seu próprio sexo. Não há necessidade de um beit din ou outras testemunhas, mas algumas pessoas pedem para alguns amigos entrarem para acompanhar sua experiência.

O participante perfaz todos os preparativos tradicionais - limpeza total do seu corpo, inicialmente - e faz uma oração silenciosa, focalizada em sentimentos de confiança, pureza e bondade. Muitas vezes discutimos antes os conceitos judaicos de emuná, tahará e chesed. As duas primeiras imersões são realizadas com a bênção tradicional ai ha-tevilá. Depois da brachá costumo perguntar se o participante deseja dizer alguma coisa, seja em voz alta, seja em silêncio. Depois ele ou ela imerge mais uma vez com o shehecheyanu. Procuro manter a atmosfera a mais silenciosa possível, com luzes suaves, velas, ou mesmo música ambiental suave. Tudo isto fica mais fácil quando o rabino assume o comando da mikva, sem a presença desagradável de um shomeret passeando pelo local. Urna lagoa, o mar, ou até mesmo urna piscina coberta são possíveis alternativas quando não dispomos de urna mikva, ou se a mikva disponível é hostil aos participantes que a querem utilizar de maneira não tradicional.

A Mikva e o Movimento Reformista

O Movimento Reformista atualmente procura dar atenção aos ritos femininos e aos ritos que apresentam criatividade, como se pode observar facilmente no novo Manual do Rabino e também na versão revisada do "Gates of the Home”. Considero os ritos de purificação totalmente apropriados, pois vivemos em um mundo sedento de símbolos, de mitos positivos e plenos de significado. As pessoas nos procuram porque confiam em nós, confiam que somos suficientemente abertos acerca da reapropriação de imagens e ritos tradicionais, atribuindo-lhes novos significados igualitários ou feministas. A freqüência à Sinagoga diminuiu, mas a New Age, as chavurot e os pequenos grupos com inclinação espiritual estão cada vez mais fortes. As pessoas querem transformar suas vidas de uma maneira judaica, mas observam com tristeza que, nos momentos de crise, com exceção dos casos de morte, o Judaísmo pouco tem para lhes oferecer. Voltam-se para religiões orientais e nativas, não compreendendo que o Judaísmo possui, armazenadas, imensas possibilidades. O rito da mikva é para eles uma verdade. É judaico e antigo e, no entanto, é criativo e realça os valores da vida. Tenho insistido que a mikva pode ser redescoberta a partir de uma perspectiva feminina, e acredito que a maioria dos novos usos da mikva como terapia espiritual estão em sintonia com uma visão igualitária e feminista. E nós, como rabinos reformistas, não precisamos ter medo de ser considerados ruins por causa disso.

Do ponto de vista da Midrash podemos representar as águas da mikva como as águas do Éden. As águas do útero, o poço de Miriam, a chuva morna da criação. A imersão nos permite afundar profundamente e voltar à superfície cheios de esperança. Ela literalmente lava o passado. Da mesma forma que aquele que optou por ser judeu emerge das águas como uma pessoa diferente, o mesmo pode suceder com qualquer participante. A mikva tem o potencial efetivar urna ablução que abre comportas' e refaz as conexões entre o Judaísmo e a integridade de cada um de nós.

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