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Conceito contemporâneo de Healing e Cura

A despeito dos avanços da ciência e da valorização do conhecimento baseado em relações mensuráveis de causa e efeito, trabalhos consistentes demonstram um importante interesse pela religião.

Nos Estados Unidos, 96% dos habitantes acreditam em Deus, 78% crêem em milagres, e 55% consideram que a Bíblia é literalmente uma expressão da palavra divina.

Em 1995, 43% dos americanos informavam freqüentar a igreja ou a sinagoga ao menos uma vez por semana e 90% diziam rezar sistematicamente. Os que oravam o faziam também por acreditar que suas preces tinham um impacto direto sobre a saúde. Creio que, com pequenas alterações, os dados estatísticos obtidos nos Estados Unidos podem ser estendidos a outros países.

O conhecimento médico vem registrando avanços extraordinários, fazendo com que vivamos mais e melhor. A moderna visão do atendimento médico como direito social, compartilhado por todos os cidadãos, aproxima-se da perspectiva tradicional que embasa as atividades religiosas. Ao mesmo tempo, questões como o controle da natalidade, o prolongamento da vida por meio de transplantes, o uso de células tronco em terapia genética e outros temas colocados na ordem do dia pela pesquisa médica possuem em seu cerne um conteúdo religioso que pode e deve ser discutido. Por estas e outras razões, existe hoje uma urgente necessidade de diálogo, de aproximação de linguagens, que proporcione aos homens e mulheres de nosso tempo uma visão de mundo integrada e harmoniosa.

A educação médica contemporânea produz profissionais altamente qualificados, cada qual dono de um vasto conhecimento em sua área de especialização. No entanto, vemos surgir neste mesmo momento profissionais com extrema rigidez de sentimento, protagonizando infelizmente posturas médicas muitas vezes condenáveis. De certa forma, a figura do médico como curador, como guardião da saúde, é substituída pela do técnico, que cura, mas não oferece respostas para as angústias e inseguranças. Isso tem chamado a atenção da comunidade médica, que busca na religião um ponto de apoio para enfrentar os desafios apresentados por suas tarefas e seus pacientes.

Na perspectiva bíblica, a doença é quase sempre vista como uma punição – uma punição que vem do Senhor. Por isso, a figura do médico praticamente inexiste no Antigo Testamento, que faz muitas vezes dos profetas os porta-vozes da condenação divina. Esse modelo se casa, historicamente, com uma aproximação da atividade médica de caráter sacerdotal. Dito de forma simples: era o sacerdote que assumia, no princípio, o papel mais tarde atribuído ao médico.

Numa fase posterior – que podemos, grosso modo, qualificar como talmúdica –, tendo sido destruído o Templo, a vida concentrou-se em torno das sinagogas. Ao contrário do período bíblico, quando se sabia o que fazer, nesta nova etapa passou-se a discutir como fazer. Questões como a saúde e a doença começaram a ser debatidas com maior profundidade. E esse debate propiciou a própria ascensão da figura do médico, escassamente mencionada no Antigo Testamento.

A ciência médica – que se separou da religião na antiga Grécia, no tempo de Hipócrates – ganhou, no ambiente cristão, um ensino de caráter formal a partir do século X, com o surgimento da Escola de Salerno. Com a disseminação do islamismo, os judeus, considerados um dos “povos do Livro”, experimentaram um processo de ascensão social. Sobre essa base fértil, ocorreu em seu meio todo um florescimento das ciências naturais e também da medicina. Figuras destacadas no cenário médico, como Hasdai ibn Shaprut, nascido em 915 e morto em 970, iluminaram esse período.

A partir daí, os judeus se integraram ao caudaloso rio que iria desaguar, na Europa do século XVII, na chamada Revolução Científica. Hoje podemos ver o quanto à medicina migrou, em busca de uma excelência científica e tecnológica que, de forma sustentada, lhe assegura crescente eficácia em nossas vidas. Sobre isto não precisamos falar, pois se trata de um conhecimento recente que, de certo modo, todos compartilhamos.

A tradução literal da palavra Healing seria cura. Porém, em nossa cultura, a cura está muito mais associada à superação dos sintomas físicos – o que a distancia do conceito de Healing. O Healing é muito mais abrangente e refere-se a um processo que se orienta naturalmente em direção à totalidade, à reorganização, à integração corpo-mente-espírito, à retomada de nossa condição de equilíbrio.

Profissionais da saúde podem cuidar da doença, inclusive prestando uma assistência emocional que contribui ativamente para a cura. A família pode consolar uma pessoa enlutada. Porém, para muitos, esses desafios enfrentados em determinados momentos da vida despertam uma busca maior de significados, uma esperança de reorganização espiritual.

A nossa tradição judaica responde sábia e poderosamente a essa demanda, ampliando e aprofundando nossa percepção das crises e enfermidades; criando uma atmosfera que facilita a reconexão e, dessa forma, complementa os métodos convencionais; propondo caminhos em direção ao reequilíbrio e à paz interior.

Em seu livro The lost art of healing, o cardiologista Bernard Lown, ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1985, exercita esta reflexão quando diz que os médicos cuidam cada vez mais das doenças e cada vez menos dos doentes. Este médico, quando chamado para atender o Lubavich Rebe que teria sido acometido de um enfarte,após tê-lo atendido e o orientado, o Rebe teria dito: “agora precisamos cuidar de sua alma que está muito perturbada” Evidentemente, não podemos atribuir essa postura de afastamento dos valores espirituais ao desejo do médico, mas a todo um contexto econômico, social e cultural. Sob o prisma técnico, o conhecimento médico é enorme e a atenção aos detalhes exige do profissional uma dedicação muito grande. Por outro lado, o esforço cotidiano pela sobrevivência em um cenário incerto e competitivo interfere no tempo e na própria organização da vida do médico. A conseqüência disso tudo é que, de uma pessoa com sólidos lastros familiares, políticos e até religiosos, o médico se transformou em um ser apressado, extremamente direto e muitas vezes frio.

Nesse quadro, haveria espaço para a introdução de outros fatores que pudessem substancialmente colaborar nos processos de cura? Estudos consistentes demonstram que pessoas com envolvimento religioso são menos propensas ao consumo exagerado de álcool. Isso é algo que até poderíamos esperar, dado o próprio poder normativo das doutrinas religiosas. Mas o que dizer da menor incidência de hipertensão, de acidente vascular cerebral, de câncer e da maior taxa de sobrevida?

Encontramos na literatura médica estudos clínicos que demonstraram os efeitos da intervenção espiritual na promoção da saúde. Eles contradizem a visão absolutamente técnica que a literatura medica sempre defendeu – não por ser contrária a praticas desse tipo, mas por nunca incluir tal variável em uma avaliação consistente de causa e efeito. Uma consideração especifica diz respeito aos resultados da meditação, que alguns trabalhos científicos demonstram possuir correlação positiva com o tratamento da hipertensão e com as dosagens séricas de cortisol.

Inúmeros exemplos práticos desta concepção existem. Um deles é o conceito Planetree, exposto no site www.planetree.org, que é uma espécie de credo de atuação em prol de formas mais humanizadas de atendimento médico. Outro conceito importante é o do chamado Healing Environment. Os especialistas afirmam que, se criarmos um ambiente satisfatório, conseguiremos diminuir substancialmente o tempo de internação.

A Pediatria de nosso Hospital utiliza alguns destes conceitos em iniciativas como a brinquedoteca; a aromaterapia proporcionada pelo bolo de chocolate, assado todos os dias; a mudança dos uniformes do pessoal de atendimento; a mudança de cardápios; a sala de video game etc.

A incorporação da medicina alternativa no rol de nossos produtos e serviços é também uma expressão desse caminho. Uma prova quantitativa do reconhecimento público do valor de práticas curativas como shiatzu, do-in. Nos Estados Unidos gastam-se anualmente bilhões de dólares em medicina alternativa.

Dividido entre as falsas alternativas apresentadas pelo árido materialismo, de um lado, e o fanatismo religioso, de outro, o mundo contemporâneo vive uma crise cuja natureza é essencialmente espiritual. A aproximação entre a ciência e a religião oferece-nos a esperança de superação do impasse. E conceitos, como o de Healing, são exemplos do potencial prático dessa abordagem. Para bilhões de homens e mulheres perplexos deste planeta, o diálogo de que falamos pode ser a porta para uma vida integrada e integral, na qual o conhecimento positivo dos entes da criação coexista com a reverência amorosa ante o mistério do Criador.

No século XIX havia uma crença por muitos grupos que a ciência havia matado D´eus pois por meio desta era possível explicar tudo e portanto não haveria a necessidade de D eus.Hoje, quanto mais nos aprofundamos nos mistérios da natureza, ficamos mais maravilhados com suas perfeições e fica difícil imaginar que tudo surgiu pelo acaso, mas sim por uma força criadora que denominamos D´eus. E é neste sentido que nos orientamos, com a força divina presente, encarando a doença também como uma oportunidade de crescimento,instituindo o conceito de vida saudável aliada às boas ações para as pessoas e para a comunidade na forma como Maimônides diria e, substancialmente um médico como um vetor não só da cura mas sobretudo da transformação.

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