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Desenvolvimento do conceito de Healing

É sempre interessante retomarmos textos milenares quando tratamos de assuntos que geram grande polêmicas na atualidade. Assim como temos diferentes medicinas – a alopatia, mais ou menos intervencionista, a homeopatia, a antroposofia, a medicina chinesa e a ayurvédica - temos diferentes compreensões do corpo e, sobretudo, diferentes noções de saúde, doença e cura.

O presente artigo não se propõe a discutir as diferentes culturas médicas. Propõe antes, revisitarmos os conceitos de healing e cura, doença e saúde, tratados pelo Judaísmo desde a revelação da Tora. Mas a que conceito de cura[1] nos remete a Torá? Cura do corpo ou healing?

Doença do corpo ou da alma? Quem cuida de quem?

A aliança de Deus com Israel afirma Deus como curador, como fonte da saúde e da doença.

Na época bíblica, a doença é vista como uma forma de punição divina individual ou coletiva, ao invés de atribuída, como nas culturas mesopotâmias, egípcias e canaanitas, a forças demoníacas.

Em Deuteronômio 24:8 e Números 12 Moisés faz uma prece pela recuperação de Miriam, e na canção de Moisés, em Deuteronômio 32:39 Deus afirma seu poder de dar a morte ou a vida, ferir e curar.

O Healing vem como conseqüência do perdão, reconciliação, renovação e recompensa, pela volta ao cumprimento da parceria na aliança com Deus.

Os profetas Hosea, Isaías e Jeremias enfatizam os aspectos inerentes à volta a Deus refletindo no Healing. Ezekiel e Zacarias descrevem Deus como cuidador dos doentes, fracos e perdidos e acusam Israel por não ajudar Deus em seus esforços a favor dos necessitados. Elias, Elisha e Isaías invocam os poderes de Healing divinos através de preces, jejuns e remédios.

A Torá e a Mishná tem uma atitude negativa com relação aos “médicos” porque os relaciona com o uso de magia, feitiçarias e encantamentos. Consultar exorcistas em busca de cura podia levar a exílio da comunidade e o uso de magia era considerado abominação e idolatria. Recomendava-se fazer uso de sacrifícios, preces, salmos, auto-avaliação e arrependimento, feitas pelo próprio doente. Depois da doença ter passado, sacerdotes e profetas realizavam rituais de purificação e, depois de curada, a pessoa oferecia agradecimentos e oferendas a Deus pelo seu restabelecimento.

Algumas fontes, porém, acreditam que mesmo nos tempos bíblicos, principalmente as comunidades judaicas influenciadas pelas culturas egípcia, midianita e romana usavam práticas envolvendo palavras mágicas, encantamentos e exorcismo.

O período pós-bíblico trouxe um aumento no uso de remédios, exorcismo e uso de amuletos para Healing. Depois da destruição do Segundo Templo, em 70 d.c., mágicos, exorcistas, curandeiros, “adivinhadores” do futuro e conselheiros substituiram o papel dos sacerdotes do Templo, para atender as necessidades de orientação e cura das pessoas.

Difundiam-se histórias sobre os poderes especiais de cura a Elias ou Elisha, e a rabinos como Hanina ben Dosa e Yohanan Ben Zakai.

Durante a codificação da Mishná, no começo do século III, esses “healers” representavam uma ameaça a autoridade institucional e espiritual rabínica das academias. Os sábios denunciavam a mágica, feitiçaria e desqualificavam seu uso, condenando-a oficialmente. Apesar disso, o uso dessas práticas sobreviveu na literatura rabínica, e muitos usavam e recomendavam “encantamentos” com o uso dos nomes de Deus e passagens bíblicas. Insistiam . porém, na importância das preces e obediência às mitzvot.

Somente a partir do período Helenístico, que enfatizou o conceito de lei natural e gerou formas “científicas”, e não mágicas, de exercer a medicina, é que as objeções judaicas às curas por “médicos” começaram a cair e desenvolveu-se um respeito por essa profissão, consolidando-se a obrigação de curar, característica da visão judaica de saúde. A arte da medicina e seus “healers” passam a ser instrumentos do propósito divino.

Ainda assim, não dispensavam a interferência divina. Ben Sira, em seu livro apócrifo, por exemplo, afirma que Deus pode ser acessado diretamente através da prece, sacrifício e aderências às mitzvot.

Diferentemente das crenças filosóficas gregas, onde era visto como fonte primária do mal e pecado, as fontes rabínicas afirmam que o corpo foi criado por Deus, então é bom e fonte de maravilhamento. Comer e fazer sexo são prazeres legítimos, e Deus os criou para serem desfrutados. A prática do ascetismo é fortemente condenada, mas reconhece-se a necessidade de limites a esses prazeres. São estabelecidas obrigações práticas e legais com relação ao corpo: dietas, exercícios, relações sexuais, higiene e sono. A ética e os valores nos comportamentos é buscada tanto quanto a saúde física. Para as fontes rabínicas de Healing , ambas requerem a somatória dos conhecimentos de cura de rabinos e médicos. Tanto quanto a doença física, a insanidade ou incapacidade mental são condições que requerem esforços de cura e não punição ou arrependimento.

No Shulchan Aruch, Joseph Caro afirma que o médico tem a obrigação de curar, e não procurar fazê-lo é equivalente a derramar sangue. A injunção inclui curar não judeus.

A obrigação de curar estende-se além dos médicos à Comunidade judaica em geral, e todas as pessoas devem visitar os doentes. Essa ordem visa a ajudar a pessoa enferma e também a imitar as ações de Deus como curador.

Deus permanece o único “healer”; médicos e visitantes podem agir como parceiros e agentes de Deus, nunca o substituindo. A Shechiná, a face feminina de Deus permanece na cabeceira da cama do enfermo. A Comunidade reza pela cura para Deus, no Sidur, três vezes por dia, na Amidá. O Misheberach é recitado na leitura da Tora, pedindo a cura completa, cura do corpo e cura da alma.

Em adição à prece, Rashi e Mimônides reafirmam a conexão estreita entre saúde e obediência às mitzvot.

Apesar das condenações, os místicos judeus continuaram a praticar práticas populares até o período moderno, entre elas a astrologia e uso de amuletos.

A tradição chassídica, emergindo no século XVIII, em linhas gerais, manteve a ligação entre pecado e doença, afirmando que a saúde física e mental envolve o reestabelecimento da relação correta com Deus através da prece, leitura devocional de salmos, jejum, e atos secretos de caridade. Os tzadikim, líderes de correntes específicas no Chassidismo, eram considerados grandes “healers”. Muitos se apoiavam nos remédios recomendados por Baal Shem Tov., outros focalizavam mais nas preces, bençãos e rituais. Peregrinações para os túmulos de “santos” também foram estimuladas. Os escritos do Rabi Nachman de Bratslav voltavam a banir a intervenção dos médicos e enfatizavam exclusivamente a prece.

Outros movimentos, como o Musar (instrução moral), que enfatizou a ética e auto-análise, no século XIX, promoveu o cultivo de certos comportamentos e valores na perseguição de uma vida equilibrada, com o objetivo de prevenir ou curar a doença mental.

No final do século passado, o movimento judaico de Healing passou a basear-se nas sinagogas, cujos voluntários promovem serviços comunitários de Healing, visitas a doentes e grupos de apoio a idosos e doentes crônicos patrocinados comunitariamente, e rituais construídos como resposta às necessidades dos seus membros. Assim, está estabelecido que o contexto contemporâneo de Healing é a Comunidade, em vez do formato tradicional em que um homem santo detém o poder de evocar as bênçãos divinas sobre o doente ou o fragilizado.

As raízes na tradição judaica são fortalecidas através do uso do hebraico, textos judaicos, preces da liturgia, visitas, rituais, festas judaicas, meditação, visualização, música e canto. O Healing não substitui a medicina, ele a complementa. A crença básica é que o Healing é sempre possível, e que podemos nos apoiar na tradição judaica para desenvolver a busca de sentido, esperança, força, coragem, uma identidade positiva (no lugar de deixar que o papel de doente domine o sentido do Self,)e um senso de pertencer a uma tradição milenar e a uma comunidade local ativa.

É parte do Healing Judaico Contemporâneo, pretender e promover também um Healing da Comunidade, quando ela não cuida de seus idosos, seus doentes, seus membros fragilizados, eliminando seu isolamento social.

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