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Maggid - Uma jornada pessoal

Ellen Schecter é uma escritora, produtora e educadora que publicou mais de vinte livros infantis, e criou uma mídia premiada, que milhões de pessoas aproveitam. Membro do Grupo de Apoio espiritual Judaico do Centro de Healing Judaico de Nova Iorque, Ellen proferiu esta palestra como parte de um painel apresentado em um evento organizado pelo Centro Nacional Healing Judaico e o JHC de Nova Iorque.  Somos gratos por ela nos ter dado permissão de compartilhar sua história com todos vocês. Ellen também contribuiu consideravelmente com seu tempo e sua energia criativa para esta edição do The Outstreched Arm (A Mão Estendida). Saudamos o dom de sua voz e de seu coração nestas páginas.

Nos últimos 24 anos, eu tenho convivido com duas enfermidades dolorosas, incuráveis e que ameaçam minha vida: lupus sistêmico e polineuropatia desmielinezante. Durante todos esses anos, eu fiz tudo o que pude para ajudar a mim mesma e à minha família: uma quantidade enorme de medicamentos, especialistas, clínicas, hospitais; vários grupos de apoio, hipnose e auto-hipnose, psicanálise, psicoterapia, terapia familiar.

Como sou uma pessoa realista, há muitos anos desviei minha atenção da cura do meu corpo para uma busca da cura de meu espírito. E assim começou uma jornada espiritual que, apesar da falta de qualquer educação religiosa formal prévia, está me levando, de forma profunda, de volta às minhas raízes judaicas. Esta busca me levou até a Congregação B’nai Jeshurun, em Nova Iorque, onde estou aprendendo como rezar e estudar Torá, e estudando hebraico e canto, para me tornar uma “Bat Torá”, aos 55 anos.  A disciplina de “domando através de dar nomes” – reconhecer exatamente as dificuldades da doença em palavras numa página para poder compreender e analisar tanto as influências e suas limitações – é também um recurso precioso na adversidade para pessoas que, como eu, são escritoras.

Enquanto a seqüência de minhas jornadas para dentro dos mundos da doença e da religião se entrelaçam inextricavelmente, eu sinto uma imensa necessidade de não apenas transcender minha experiência da doença, mas de santificá-la.

Há muito tempo dei adeus à pergunta irrespondível e desinteressante “Por que eu?” e a substituí por um novo desafio, mais importante: “E agora, o que?” Porque, embora eu saiba que não posso controlar as cartas que me servem no jogo da minha vida, eu acredito que é minha responsabilidade mais séria escolher, de forma ativa, como vou jogá-las.

A ligação que recebi no outono passado do rabino Simkha Weintraub, do Centro de Healing Judaico de Nova Iorque- com seu convite para que participasse de um grupo semanal de Healing Espiritual Judaico- não foi apenas uma resposta a um recado telefônico, foi uma resposta a uma oração. Uma oração pelas ferramentas espirituais judaicas que irão me ajudar a criar um sentido a partir da aflição; a transformar palha em ouro; a moldar um coração com sabedoria.

A diferença essencial em um grupo de apoio espiritual judaico é que nossa busca espiritual diante da enfermidade mais grave é iluminada pelo prisma da fé, do pensamento, comunidade, tradição e ritual judaicos. Outra diferença fundamental é que a busca por sentido se faz através do estudo. Não estamos limitados ao nosso próprio conhecimento e experiências, mas podemos dar as mãos e pular juntos em um vasto oceano de ensinamento e aprendizado: Torá, salmos, midrash, Talmud, contos chassídicos...

Verdade, há muito kvetching (reclamar constantemente) – afinal, nós somos judeus; e há aquela “saudação secreta da doença.” Nós sabemos que quando nossos companheiros de jornada balançam a cabeça e murmuram “eu sei,” eles realmente sabem. No entanto, a alegria específica de um Grupo de Healing Espiritual Judaico é que nos aprofundamos cada vez mais nas tradições judaicas de healing e as praticamos, não isoladamente, mas em conjunto.  O que nós fazemos?

Nós rezamos juntos: Nós exploramos significados e modos de rezar como expressões de pesar, raiva, medo, solidão, alegria, agradecimento, celebração, e simplesmente silêncio; só estar ali.

Nós cantamos juntos: Nigunim antigos – melodias sem palavras que impregnam nossa mente. Quando cantamos, passamos a fazer parte de uma corrente sagrada que alcança milhares de anos no passado e se projeta também no futuro. Esta corrente tem significado especial no isolamento da enfermidade.

Nós aprendemos a “desembrulhar” e interpretar os incontáveis sentimentos e significados de um salmo, conseguindo assim um modelo para a exploração contínua de nossa liturgia em geral e dentro do contexto da enfermidade.

Nós estudamos e interpretamos: em geral, analisando o trecho semanal da Torá. Descobrimos significados e levantamos questões que levam em consideração o sofrimento especial das pessoas lutando com a enfermidade. Nossas discussões, por exemplo, de Jacó enfrentando o Anjo e recebendo não apenas um ferimento, mas uma benção e um novo nome, tanto suscitaram questões quanto propiciaram revelações profundas, curativas.

Nós discutimos: ah, se discutimos! Qual é o conceito judaico de vida vindoura e da relação entre o corpo e a alma? Quais são as origens e os significados dos rituais judaicos de morte e luto? O que é doença? Ela vem de Deus? Deus pode eliminá-la? É um castigo? Ou uma das mudanças naturais e inesperadas da vida que precisa de integração em nossas vidas espirituais?

Nós aprendemos sobre a importância da comunidade: a tradição judaica, em sua sabedoria, decreta que não devemos nos curar sozinhos; que eu devo procurar minha comunidade em busca de força e estímulo. Precisar deste sentido de comunidade não quer dizer que sou um covarde ou um reclamão.

Cada reunião de nosso grupo é salpicada de “Ahá!” As epifanias - percepções do significado fundamental de certas coisas - são diferentes para cada um de nós, mas eis aqui algumas que ecoam profundamente em mim: Eu vim para nossa primeira reunião na semana em que finalmente aceitei o fato que devia deixar um trabalho que eu amava profundamente porque não podia mais forçar meu corpo a se curvar diante da vontade da minha mente. Nossas reuniões semanais se tornaram, rapidamente, um ponto de luz conforme eu construía uma nova vida.

Para mim, a luta do espírito diante da doença é parte de uma busca global por sentido e sabedoria, como no Salmo 90: “Ensina-nos a contar os nossos dias de tal maneira que alcancemos corações sábios.” Nosso grupo de healing nos capacita para que possamos buscar fora, para o alto e para dentro, vislumbres dessa sabedoria.

Os nigunim que cantamos juntos se enraízam em meus dias e meus sonhos. Eles surgem de dentro dos meus ossos quando mais preciso deles: Quando a agulha intravenosa penetra minha mão, ou quando a quimioterapia queima minhas veias. Eles são parte de minha respiração, um fio invisível que me conecta ao passado e ao futuro no momento em que corto minhas âncoras mais comuns e me sinto flutuando sem controle pelo mundo.

Participar do Grupo de Healing Espiritual suscita mais questões do que esclarece, mas também dá mais conforto, mais direção, e mais força do que jamais sonhei. Acima de tudo, faz com que eu e meu grupo nos sintamos famintos – muito famintos – por mais, conforme percebemos que nossa tradição judaica oferece oportunidades sagradas tanto para reconhecer o sofrimento quanto para cultivar a alegria.

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