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Sentido de comunidade: um dos pilares da cura |
Três pilares dão suporte a uma concepção judaica de healing coerente com a noção de “refua shlema”, ou cura completa: a relação do indivíduo consigo mesmo, sua ligação com o sagrado e seu sentimento de pertencer a uma comunidade.
Para compreender este tripé, é necessário inicialmente explorar a idéia de cura completa contida em diversas rezas judaicas, como, por exemplo, o Mi Sheberach. O texto desta prece fala em cura completa, mencionando a cura do corpo e da alma, aludindo ao fato de que a cura de qualquer doença não será completa sem que, para além do aspecto físico e corporal, a alma esteja curada. Alude também ao fato de que não é possível conceber a separação cartesiana entre corpo e mente, pois, tal como afirma a moderna ciência da psicossomática, se a causa não for tratada, uma mesma doença pode se manifestar sob outros sintomas físicos. Ou seja, tanto na concepção judaica quanto na Psicossomática, o fator causal da doença não estaria situado no plano físico, mas seria determinado por causas pertencentes ao plano psicológico ou mental ou à alma.
Por isso, não é difícil compreender porque a própria palavra healing tem relação com o termo inglês whole, que significa todo ou totalidade e porque as ações de healing são dirigidas a recompor a totalidade que se rompeu com a doença, agindo no sentido de propiciar a reconexão do indivíduo consigo mesmo, com Deus (ou o sentido do sagrado) e com a comunidade.
Poder-se-ia perguntar por que a comunidade é importante neste contexto ou qual é o papel específico da comunidade neste movimento de healing ou cura completa. A resposta é que a existência – ou recuperação - de um sentimento comunitário é crucial em situações de construção [ou na reconstrução] da identidade.
Quando a identidade social está sendo construída, há um momento na vida dos jovens em que eles tendem a se agrupar, “enturmar”, sentindo-se parte de um todo maior que, ao mesmo tempo, é contido na sociedade em que vivem e, simultaneamente, os diferencia dos demais, sejam eles adultos ou aqueles pertencentes a “outras tribos”. Mas esse sentimento de pertencimento precisa ser permanentemente renovado, em função dos muitos grupos com os quais a pessoa entra em contato ao longo do tempo. Muitas das reflexões que se processam neste campo têm lugar nas crises – pessoais ou coletivas – que abrangem a identidade. A doença é um desses momentos em que a identidade – ou a idéia que se tem de si mesmo - se fragiliza e a pessoa doente se pergunta se ela continua a ser ela mesma apesar da doença ou se ela é outra por causa da doença.
Vejamos um exemplo: a moça que recebe o diagnóstico de câncer. Ela passa a se ver diferentemente. Ela ainda é a mesma, mas passa a se ver doente. Precisa mudar hábitos, percepções da vida, relações e esses movimentos que deve fazer em função da doença acabam tendo impacto nos valores e na auto-percepção. Nesse momento, a comunidade de pertença pode ou não acolhê-la; ela pode sentir-se incluída – parcial ou integralmente – na comunidade na qual se reconhece ou isso pode gerar um movimento de busca de agrupamentos em que ela possa se sentir ela mesma, com seus aspectos sadios e doentes. Ela poderá buscar grupos em que outras pessoas que estejam vivendo o mesmo problema ou poderá integrar-se aos grupos aos quais já pertencia.
PEsse processo é bem conhecido em doenças crônicas, como por exemplo, o alcoolismo e o tabagismo, em que se re-criam laços de solidariedade (que tendem a se perder na sociedade mais ampla) e os membros do grupo (Alcoólicos Anônimos, por exemplo) ajudam uns aos outros na recuperação da doença. As redes sociais de apoio assim estabelecidas reforçam a importância de ir além do aspecto medicamentoso da doença, incluindo a solidariedade e ajuda mútua como fatores cruciais no processo de cura.
A importância do sentimento comunitário é válida universalmente, mas assume características diferenciadas quando se trata da comunidade judaica, pois só é possível falar sobre comunidade se e enquanto esta se reconhece como tal, [igual entre seus membros e diferente de outros grupos e comunidades].
A identidade judaica, não sendo regulada legalmente, é passível de mobilidade e mudanças em seus vínculos internos. Indivíduos podem se identificar - mais ou menos - com essa comunidade ou vivenciar diferentes níveis de vinculação ao judaísmo ao longo de uma vida. Podem cortar os laços de união com ela e retomá-los em outras circunstâncias. Podem, inclusive, mudar suas preferências ao longo de um ciclo vital.
Como diz René Decol, em seu estudo sobre “Judeus no Brasil”, definir quem é judeu não basta para falar sobre a comunidade judaica, pois um indivíduo pode se definir como judeu e não se sentir membro dessa comunidade, não participar dela, não reconhecê-la como sua. Sabe-se que grandes nomes judaicos negaram por longos períodos a sua identidade judaica, preferindo se identificar com o espírito e os valores sociais e culturais dominantes. No caso de Freud, por exemplo, a perseguição nazista se tornou parâmetro para suas reflexões e revisão de postura: foi pelo olhar do outro [o perseguidor] que ele se repensou como judeu.
Momentos de crise, seja ela doença, luto ou sofrimento impõem uma reflexão sobre nossa identidade e nada mais pertinente que rever a questão da identidade coletiva, comunitária, elemento de pertença. Healing – cura completa – não pode prescindir da recuperação do sentimento de pertença à comunidade.
Lisete Barlach
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