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Explorando a tradição judaica

Já que este era o nome do encontro, lá fomos nós duas, Elvira (Straus) e eu, em busca da “mina de ouro”, num fim-de-semana prolongado (15 a 18 de Maio) no Arizona, perto do deserto de Fênix. A “mina” era um Congresso oferecido pelo Hebrew College-Jewish Institu-te of Religion.

 

Kalsman Institute on Judaism and Health e pelo Temple Chai de Fênix, Deutsch Family Shalom Center. Alguns dos maiores expoentes judaicos da área de Healing: rabinos, rabinas, teólogos, acadêmicos renomados, escritores, criadores e diretores de centros de Healing, reuniram-se em uma conferência para um seleto grupo de aproximadamente 300 pessoas, a maioria americanos, um grupo canadense, outro israelense, uma rabina australiana e ... nós: duas baixinhas brasileiras! Impactadas com o peso e a oferta de informação de altíssima qualidade, de uma certa forma, nós também acabamos por impressioná-los: todos queriam saber como descobrimos essa conferência ... o que nos motivou a vir de tão longe ... como é nossa Comunidade ... nosso país ... o que fazemos no Núcleo de Healing. O objetivo do encontro era oferecer uma oportunidade “arqueológica”: escavar, procurar, conhecer, trocar informações e fomentar novos projetos em torno desse conceito cada vez mais citado e estudado atualmente: Healing.

Mas afinal, o que é Healing? Qual sua relação com a sabedoria da tradição judaica? Mais abrangente do que a cura física, o Healing cuida de uma força inerente à vida, difícil de definir objetivamente, cujo movimento se orienta naturalmente em direção à totalidade (Shlemut), à reorganização, à integração, e a uma das maiores qualidades da vida: a resiliência (capacidade de voltar a sua forma ou organização anterior). Explicando melhor: como uma planta que insistentemente busca a direção da luz do sol, temos dentro de nós, uma propulsão natural para reconstruirmos o caminho do equilíbrio. Às vezes, isso representa a própria cura física. Às vezes, o corpo não apresenta sinais de cura, mas há transformação, o encontro de um significado ou equilíbrio, uma nova percepção integrativa, que ajuda a manter ou redescobrir a esperança, a fé, a paz.

Viver ou testemunhar doenças, perdas ou crises, embora dolorosas, muitas vezes desperta uma força interna, permitindo que na “escuridão”, a-baixo da superfície, sementes de uma nova dimensão de liberdade e sabedoria comecem a germinar, dando origem, na estação certa, a frutos especiais, sagrados. Esta também é a força do Healing. Para evitar o sofrimento, muitas vezes reagimos estreitando nossa percepção, anestesiamos nossos sentidos, ampliamos a distância que nos separa do outro. uscamos negar sentimentos que nos “ameaçam”, simplesmente por não sabermos como lidar com eles. Levantamos muros que nos protegem. Estas mesmas defesas acabam nos isolando, dificultando a entrada da “luz do sol”, tão necessária. A “planta” pára de crescer, a força fica latente. O que podemos fazer para facilitar a reativação dessa força? Entre outras possibilidades “terapêuticas”, para que o Healing aconteça, precisamos encontrar uma Sucat Shalom, uma “tenda de paz”. Um lugar seguro, em que a vulnerabilidade, a dor, a solidão e o medo possam vir à tona e serem expressos. Um lugar onde nos sentimos protegidos e novamente conectados e significativos. Onde possamos compartilhar e dividir a carga que está sobre nossos ombros e encontrar amparo e orientação. Não é por acaso que quando invocamos Deus no interesse de pessoas que estejam sofrendo desafios em sua vida, entre todos os Seus nomes, escolhemos “HAMAKOM”, o lugar.

Na conferência, pudemos penetrar e apreciar alguns portais, ferramentas que o Judaísmo oferece e que possibilitam a cada Comunidade a construção da atmosfera desse “MAKOM”. Vivemos três dias imersas num clima especialíssimo:calor humano e atividades impregnadas de suavidade e inteligência:um ambiente preparado para que a alma e o corpo fossem tocados suavemente: pela manhã, yoga e serviços religiosos diários com salmos, orações e nigunim. Durante o dia, oportunidades para discutir ou ouvir ”feras” falarem sobre questões existenciais cotidianas, baseados em textos bíblicos e rabínicos: o Tanach, e o Talmud são uma biblioteca de Healing e esperança, e suas histó-rias dão respostas a crises e orientação de caminhos. (É possível ver e ouvir quatro expoentes em www.huc.edu/kalsman/projects/mining).

Estudamos as leis de Bikur Cholim, visitas a doentes, e seu imenso potencial para exercitar a bondade e dar alívio aos nossos pares e as festas judaicas, que nos oferecem oportunidades para “pegar uma carona” nas questões relacionadas a liberdade, responsabilidade pessoal e social, luto, escuridão e luz, esperança e milagres. Para receber o Shabat desfrutamos de refeições deliciosas, descanso e espiritualidade quase tangível: os serviços foram dirigidos por vários Rabinos, e a própria Debbie Friedman cantou os salmos de Shabat e o Misheberach (reza para pessoas fragilizadas ou doentes, feita durante a leitura da Torá) na melodia maravilhosa composta por ela: uma emoção indescritível tomou conta de todos nós. Percebemos como somos todos parecidos e necessitamos das mãos uns dos outros, para cuidar, manter ou recuperar a saúde. Vivemos, na pele, uma pequena amostra do “caldo” fértil que todos nós, judeus e judias, recebemos por herança: a receita de como criar um ambiente onde “bate sol”. Um ambiente “Kosher for Healing”. Conscientes, questionadores e responsáveis, nós o criamos, em Comunidade, e podemos nos deixar envolver e desfrutar de seu potencial curativo. Depois desse mergulho total, transformadas, satisfeitas e conscientes das preciosidades que temos nas nossas mãos, despedimo-nos das pessoas especiais daquele ambiente transformador, “ensolarado” e nutritivo, animadas para por idéias e ação a serviço da nossa Comunidade. A troca de experiências ajudou-nos a acrescentar mais amor e criatividade em nossos projetos.

No avião de volta, repassando os pontos altos da viagem, lembrei-me da visita ao deserto que fizemos logo ao chegar. Diante da opção entre fazer um citytour ou conhecer o deserto o grupo se dividiu. Dos trezentos, seis “meshiguenes” (nós duas e mais quatro) resolvemos ir, num pequeno jipe, conhecer o deserto. Refletindo no avião, lembrei que CHOL, em hebraico,

 

quer dizer areia, ou vazio, ou algo comum, onde falta a dimensão do sagrado. Quase surpresa, me dei conta que a palavra hebraica para doente, CHOLÊ, tem exatamente a mesma raiz. Não podia ser coincidência! No passeio com o jipe, à medida que penetramos naquele ambiente aparentemente inóspito e sem vida, fomos nos maravilhando com a vegetação do deserto. Graças ao nosso guia, conhecemos a “farmácia” a céu aberto: todas as plantas tem profundas propriedades curativas. O mais intrigante é que aquelas plantas não apenas nascem, mas só nascem naquele solo tão impressionantemente agreste e seco. De repente a metáfora ficou cristalinamente evidente. Um insight impactante e profundo: de alguma forma, a doença, a dor e a vulnerabilidade são o ambiente para fazer brotar uma força que nos conecta e cura, mobilizando-nos a servir o outro como iguais, usando nossa própria presença e capacidade de amar, sendo sensíveis, generosos e gratos. Com o coração aberto, e se quisermos, com ferramentas precisas e poderosas nas mãos, somos parceiros e mensageiros do mistério da vida e sua força emergente e contínua de Healing. Cada um de nós pode ser a mágica! Resta pedir com humildade: ”Que HAMAKOM nos abençoe a todos com a consciência de nossa capacidade de curarmos uns aos outros”. “Se eu não for por mim, quem será? Mas, se eu for só por mim, quem sou? E se não agora, quando?” Hillel Elvira Straus e Esther Dzialowski Amarante participam ativamente do Núcleo de Healing e Bikkur Cholim da Comunidade Shalom.

A equipe de voluntárias do Núcleo, sob a supervisão direta do Rabino Adrián Gottfried, desenvolve o trabalho de Bikur Cholim (visitas a doentes), organiza palestras, mantém um grupo de meditação, estuda e publica textos relacionados a Healing, promove Serviços Religiosos comunitários, centraliza a recepção de nomes a serem citados nas bênçãos para a cura de doentes durante os serviços semanais de leitura da Torá, e alimenta o site da Comunidade Shalom com materiais relevantes e relacionados a esse conceito. Sinta-se permanentemente convidado a participar, conhecer e /ou pedir a visita de uma voluntária, sempre que você ou alguma pessoa querida necessitar. Conecte-se a www.shalom.org.br e faça contato através de: healing@shalom.org.br

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