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Fonte:jewishexperience.org

De Iom Hashoa até Iom Haatzmaut : as novas ‘Grandes Festas’ de Israel

por Rabino  Donniel Hartman

 

O calendário nacional judaico de Israel está preenchido por novos feriados que Israel vem colocando no centro de nossa consciência judaica e nacional e que definem e reservam a época mais significativa do ano da sociedade israelense.  Esses feriados – que ocorrem no período de uma semana – são Iom Hashoá (O Dia de Lembrança do Holocausto), Iom Hazikaron (Dia de Lembrança dos Soldados que Morreram em Campanha) e Iom Haatzmaut (Dia da Independência).  Não é exagero dizer que esses três dias juntos constituem a época dos “Grandes Feriados” da vida israelense.

Em Iom Hashoah e Iom Hazikaron nos é ordenado recordarmos, em Iom Haatzmaut, celebrar. O que nós é cobrado lembrar? Vis-à-vis Iom Hashoah, na antiga narrativa sionista houve uma profunda rejeição à passividade e à impotência dos judeus europeus e de uma crítica implícita deles com sua cumplicidade com suas próprias mortes. Para o sionista, Israel era o antídoto para o Holocausto, a terra do novo judeu que não iria como ovelha para o abate, mas que, ao invés disto, treinado na arte da guerra,  era  capaz de se defender em tempos de perigo. A mudança do Iom Hashoah para Iom Haatzmaut  e Iom Hazikaron foi uma transição do passado que, de muitas maneiras, nós lembrávamos  para esquecer, para a nova realidade judaica, que é Israel.

Nos últimos anos Yom Hashoah passou por um renascimento na sociedade israelense. Desde a criança esquecida e desprezada que serve como pano de fundo contrastante com o novo status dos judeus, que agora serve como um veículo primordial para revigorar sentimentos sionistas. Não é a passividade dos judeus, mas sim o potencial de antissemitismo e seus perigos em curso, que servem como o foco da memória. É algo do tipo: “Graças a Israel…” Se me lembro, e de uma certa maneira uma nova experiência dos perigos da vida judaica na Diáspora, sinto a bênção que é Israel.

Já vão longe os dias de crítica; agora há empatia.  Mas é uma empatia que serve à causa de re-significar a significância de Israel. Israel ainda é o antídoto e agora a doença não é a Diáspora judaica, mas o inimigo antissemita, que estava e pode ainda estar rondando e cuja existência dá um significado perpétuo ao Estado de Israel. Consequentemente, ao invés de rejeitar a lembrança do Holocausto, os israelenses agora querem lembrá-lo, uma vez que, precisamente por lembrar, eles dão significado e premência às suas vidas em Israel.

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Fonte: tipografiaivrit.blogspot.com

Lamentando o preço pago

Iom Hazikaron na consciência israelense tem um significado diferente.  Ao recordar aqueles que tombaram, o país lamenta o preço que teve que pagar para construir nosso Estado.  Aquilo que tantos pelo mundo têm como certo – o direito de viver em paz dentro dos limites de uma pátria – é algo que nós, judeus, não fomos capazes de alcançar nos primeiros 60 anos da existência de nosso Estado.

Durante Iom Hazikaron em Israel, não lembramos aqueles que tombaram a fim de agradecer àqueles cujos sacrifícios tornaram nossas vidas possíveis hoje. Esta era a linguagem do “Memorial Day” com que eu estava acostumado quando vivia nos Estados Unidos.  Aqui em Israel, onde a experiência de ser uma família é uma das características do conceito de “israelidade”, não honramos a morte; lamentamos.  Não é o “que tombou” ou o “morto”, como um conceito abstrato que leva a alguém que não conheço.  Cada família, cada cidadão tem uma conexão direta com alguém que foi morto.  Lembramos as pessoas cuja presença sentimos falta.  Vamos aos cemitérios e vemos amigos de soldados que morreram ficarem cada ano mais velhos, desenvolver barriga e perder cabelo, enquanto nossos entes queridos permanecem presos para sempre em suas jovens existências – existências que nós não podemos mais vivenciar.

É o luto sombrio que serve como base para o Yom Haatzmaut. Ela dá à luz uma alegria responsável, de ter que ganhar a vida pagando um preço tão alto. Quando nos voltamos para Yom Haatzmaut no dia seguinte, voltamos com um profundo senso de responsabilidade. O nosso país não nos foi dado em uma bandeja de prata para citar a expressão, mas sim como formulado por Natan Alterman, em seu poema “A bandeja de prata”, nos foi entregue no prato que é a vida de nossos filhos.

Ao contrário das lembranças de Yom Hashoah, a tristeza de Yom Hazikaron não dá um novo significado à Yom Haatzmaut; ao contrário, o amplia. Lembra-nos do preço que pagamos e, como resultado, o cuidado, responsabilidade e dever que temos para construir um grande país e para viver e dar a vida um significado especial.

Shnat 2017-Israel

Shnat Noam 2017

Todos os judeus são sobreviventes

Creio que a conexão entre Iom Hazikaron e Iom Hashoah deve começar a redefinir a maneira como comemoramos o último.  É tempo de remover Iom Hashoah de seu papel com relação à causa sionista.  Aqueles que pereceram durante o Holocausto não foram ovelhas passivas, mas vítimas dadepravaçãoa que a humanidadeécapaz de descer.  Assim como a vida em Israel foi paga com sangue, assim também a vida como judeu.  Em Iom Hashoah devemos simplesmente lamentar.  Devemos lamentar as vidas que foram torturadas e ceifadas.  Devemos lamentar as vidas que não foram vividas e o potencial que jamais se concretizou.  Devemos lamentar o fato de que com frequência demais em nossa história nós, como povo, não tivemos consagrado o simples direito de viver como judeus.   O sionismo não é nem o simbolismo do novo judeu, nem é o antídoto para o antissemitismo.  Israel é o resultado da mesma maneira que é o resultado de Iom Hazikaron.

A lição mais profunda do Iom Hashoah é da responsabilidade colocada sobre os nossos ombros. Como judeus, todos nós somos sobreviventes. Como um povo que sobreviveu, nós não escolhemos o caminho da amargura e desespero. Nós escolhemos o caminho do compromisso com a vida, seus desafios, oportunidades e responsabilidades. Quando nos lembramos do Holocausto, nós lamentamos aqueles que morreram, e damos um novo respeito para aqueles que sobreviveram e às formas que sobreviveram, e comprometemo-nos a caminhar por seu caminho.

Este é o verdadeiro significado de Iom Haatzmaut, tanto após Iom Hashoah e Iom Hazikaron. Ele remodela e redefine Israel como uma família que chora junto, e através da memória do preço que pagamos para sermos judeus livres, redefine o significado de Israel. Israel deve ser aquele que se lembra, e através de que a memória constantemente ordena a si mesmo ser digno do preço que pagamos. É uma memória que nos ordena a abraçar a vida e desafia-nos a vivê-la ao máximo, para construir vidas individualmente e coletivamente de grandeza. Essa é a tarefa de Israel; que é o legado de nosso passado e o desafio de nosso futuro.

 

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