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Iom Ha Shoá, Iom Ha Zikaron: o que queremos que nossos filhos aprendam com esta comemoração?

IOM HA-SHOA | IOM HA ZIKARON

“Quando os nazistas levaram os comunistas eu calei-me,
porque afinal eu não era comunista.

Quando eles prenderam os social democratas, eu calei-me, porque afinal eu não era um social democrata.

Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque eu não era um sindicalista.

Quando levaram os Judeus, eu não protestei, porque afinal eu não era Judeu.

Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse. “

Texto escrito por Martin Nemolier, um pastor luterano alemão, que se opôs aos nazistas e foi preso nos campos de concentração de Saucshausen e Dachau entre 1938 e 1945.

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Shnat Noam na Polônia

IOM HA SHOA – DIA DE RECORDAÇÃO DA SHOÁ

No início de sua história, o governo do Estado de Israel declarou o 27º dia do mês de Nissan (normalmente em abril) como o dia que marca a destruição da comunidade judaica européia e os milhões de vítimas da Shoá.  Este é o dia em que não somente Israel, mas todas as comunidades judaicas ao redor do mundo param para recordar os horrores que a Alemanha nazista e o resto do mundo perpetraram durante aqueles anos negros.

Existe um debate atual sobre quando devemos começar a ensinar nossas crianças sobre a Shoá.  Após de certo ponto, é claro, independe de nós – eles vão ouvir falar sobre isto na escola e ouvirão isto ser discutido na mídia, assim como em vários outros meios.  Eu, por meu lado, sou daqueles que acreditam que a discussão sobre a Shoá deveria ser deixada de lado até que a criança tenha nove ou dez anos.  Não acho que precisem saber nada além do que perguntem especificamente.  Se a simples noção de que seres humanos podem ser tão horríveis é difícil para adultos, por que sobrecarregar crianças com isto?  Gradualmente podemos lhes contar que houve um homem muito mau chamado Hitler, que odiava os judeus e tentou matar todos os judeus do mundo.

Quando crescem podemos – e devemos – falar com eles sobre a cumplicidade do restante do mundo “civilizado” na Shoá – a maior parte da Europa cooperou e o Vaticano sabia, mas não fez nada.   Hoje sabemos também que a Suíça, que sempre se proclamou neutra, roubou dos judeus após a guerra – se recusando a honrar apólices de seguro e negando a eles acesso ao dinheiro depositado em contas de bancos suíços.  Os britânicos mantiveram os judeus fora do que era então a Palestina, e a República Democrática Alemã (Alemanha Oriental) e os Estados Unidos se recusaram a aumentar a quota de imigração, impedindo que muitos judeus pudessem encontrar um porto seguro.  A lista é longa.

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Shnat Noam

O que queremos que nossos filhos aprendam com esta comemoração?

Especialmente quando são maiores, vamos tentar levá-los a pensar sobre algumas destas questões:

  • Como todo um país, depois um continente, depois o mundo, de repente se tornam tão insanos e maus que podem tentar eliminar todo um povo?
  • Por que os judeus têm sido com tanta freqüência receptadores deste tipo de crueldade (não obstante deveríamos ter certeza de que nossos filhos saibam que outros povos também sofreram terrivelmente)?
  • Como perpetuaremos a lembrança do que aconteceu quando não mais houver nenhum sobrevivente?
  • Podemos – ou devemos – perdoar os alemães? Somente nós temos que perdoar, quando não fomos os únicos que sofreram?  Se perdoarmos, estamos dizendo que já é hora de esquecer?  E se insistirmos em recordar, estaremos perpetuando o ódio?

Como podemos ajudar nossos filhos a verem quão crítica foi a Shoá para o destino do povo judeu? Não existem muitos rituais associados à observância, mas há algumas coisas que podemos fazer:

  • Alugar filmes para nossos filhos e assistir com eles. Pode-se alugar Shoah, A Lista de Schindler, ou qualquer outro de inúmeros filmes sobre aquele período.
  • Há muitos livros para crianças sobre a Shoá. Se seus filhos são adolescentes e não leram “O Diário de Anne Frank”, deveriam ler.
  • Participar de algumas comemorações em toda a comunidade. Algumas delas, para falar com sinceridade, são chatas para crianças, e não deveriam ser a única coisa que as crianças fizessem.  Mas, provavelmente é importante que nossos filhos comemorem este evento em casa e como parte de uma comunidade maior.
  • Se puder, leve seus filhos a um memorial ou museu do Holocausto (de longe o melhor é o Museu do Holocausto em Washington) nesta época do ano.
  • Participe de um novo ritual que vem sendo feito em algumas comunidades, chamado seder de Iom Há Shoá. Como o seder de Pessach, este conta uma história (aqui a história da Shoá), usa comidas especiais (casca de batata crua que os nazistas serviam aos prisioneiros, ovos com sal, sopa rala com pedras e sujeira dentro), e são cantadas canções daquela época.
  • Acender uma vela de yortzeit e coloque-a em algum lugar visível, de maneira que nós e nossos filhos vejamos a vela continuamente durante as 24 horas em que ela queima. Faça-os saberem que esta perda também é nossa perda.
  • Encontre um meio para seu filho ouça a história de um sobrevivente, preferivelmente “ao vivo”, mas se não através de vídeo, internet ou outros meios quaisquer.

A última sugestão é claramente a mais importante.  Em breve não mais haverá sobreviventes para contar a história, e uma oportunidade enorme estará perdida.  Não há nada tão poderoso para nossos filhos do que ouvir a história de alguém que a vivenciou.  Quando minha filha tinha 9 anos, ela ouviu um membro de nossa sinagoga contar sua história de sobrevivente.  Ele a conta todos os anos, mas aquela foi a primeira vez que ela a ouvira.  Este é um homem que ela conhece e que respeita.  Ela o vê no shul todas as manhãs de Shabat, conhece sua família.  Ele é uma pessoa bem real para ela.

Quando ele contava sua história, os detalhes que recorda com uma clareza agonizante, ela ficava paralisada.  No final, ele contava sobre quando ele e seu melhor amigo estavam na marcha da morte, sendo forçados a marchar de seu campo de forma que os aliados não pudessem encontrar prisioneiros lá.   Seu amigo sucumbiu à fome e à exaustão, e um guarda nazista calmamente atirou em sua cabeça.  Nosso amigo então contava como lutou para continuar caminhando, mas após alguns metros decidiu que simplesmente não conseguiria ir mais adiante. Ele caiu na neve e esperou pelo tiro.  O guarda se aproximou dele e murmurou, “Você não vale uma bala.  Vou deixar você morrer lentamente”.  A próxima coisa de que ele se lembra é ser carregado por um soldado americano.

Minha filha jamais esquecerá esta história, e a Shoá nunca mais será abstrata para ela.  A idéia de que um homem que ele respeita profundamente não “valia nem uma bala” lhe trouxe a loucura daquela época.  Em algum momento ela terá que racionalizar o que significa para um terço  de um povo ser destruído.  Ela compreenderá que o judaísmo europeu era diferente o judaísmo do resto do mundo, e que quase todo ele foi morto.  Há ainda muito que ela precisa aprender, mas sua abertura para aprendizagem será energizada para sempre pelo impacto desse relato de alguém que ela conhece.  Se todos nós pudermos tornar isto possível para nossos filhos, não somente lhes ensinaremos muito, mas estaremos fazendo exatamente o que as vítimas desejavam:  tomando medidas para assegurar que não serão esquecidas.

E, finalmente, aquelas vítimas não são as únicas que não deveriam ser esquecidas.  Meio século após o fim da Shoá, a “limpeza étnica na Croácia e na Sérvia voltou aos noticiários e, novamente, por um longo tempo, o mundo se sentou e assistiu.  Qual deveria ser nossa resposta como judeus nessas situações?  Israel deveria ter uma resposta única?  O que significa recordar um genocídio enquanto assistimos outros acontecerem?  Ter esse tipo de conversa com nossos filhos e dar significado e substância a um dia que ainda merece muito a nossa atenção.

bandeira de israel

Fonte: yusnaby.com

IOM HA ZIKARON – O DIA DE RECORDAÇÃO DE ISRAEL

Algumas semanas mais tarde, no dia 4 de Iyar, é Iom Ha Zikaron.  Este é um dia em que Israel recorda os soldados que morreram defendendo o país.  Diferente do Dia de Recordação nos Estados Unidos, que para a maior parte das pessoas em que o comércio trabalha, as pessoas vão à praia e há churrasco, Iom Ha Zikaron em Israel é algo sério.  Não há praticamente uma família em Israel que não tenha perdido alguém nas guerras.  O ritual do país inteiro parando completamente para um minuto de silêncio ao som das sirenes é o principal costume em Israel.

Fora de Israel, não fazemos muito para marcar a data.  Aqui também, como em Iom Ha Shoá, podemos acender uma vela de yortzeit.  Mas quer você o faça ou não, nossos filhos deveriam saber que é Iom Ha Zikaron.  A embaixada de Israel e o consulado podem orientar você se estão acontecendo comemorações.  E se por acaso você estiver em Israel neste dia (normalmente no início de maio), você experimentará um costume pungente e angustiante de respeito, compromisso e perda.

 

Leia mais sobre:

Iom Hashoá, com Zofia Davidowicz

Os madrichim de Noam em Shnat na Polônia

 

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