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QUEM SOMOS . entrevista com rabino

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Entrevista com o Rabino Adrian Gottfried em 2003 para a Tribuna Judaica

Perguntas

  • Como surgiu sua vocação rabínica?  Onde você estudou?  Começou a atuar ainda na Argentina?
    • Rabino Adrian: A minha vocação está diretamente vinculada à figura de meu mentor e mestre, Rabino Marshall T. Meyer z’l. Ele me mostrou que era possível, nas suas próprias palavras: “ter uma mão na Torá e outra no jornal do dia” e, através de seu carisma, que mudou o Judaísmo Latino-americano eu escolhi estudar para rabino, porque foi uma alternativa de fazer de minha paixão pelo Judaísmo minha ocupação A Comunidad Bet-El, onde Marshall era o rabino foi o modelo que me inspirou lá é onde cresci, fiz bar-mitzvá, fui madrich e até diretor de Machane Ramah, que também foi determinante para minha escolha, escolha esta que fiz aos 16 anos.  Nesta idade o próprio Marshall me falou: “Pequeño (apelido que tinha na ocasião e que continuo a usar com orgulho até hoje), preciso de você para oficiar os serviços religiosos em Avellaneda ”, e por dois meses foi até lá , com muito medo, para liderar os serviços de Shabat.  Com 17 anos, junto com um outro colega, através do Seminário Rabínico Latino-Americano, viajamos a Salta parra liderar os serviços de Rosh Hashaná e Iom Kipur.  Na verdade, comecei a trabalhar como rabino muito antes de sê-lo, com cargos de responsabilidade, até  própria Comunidad Bet-El, onde trabalhei na Escola e No rabinato como Seminarista (estudante de Rabinato) itinerante, em Salta, Mendoza e Tucuman.  Antes de vir para o Brasil, trabalhei durante 6 anos no Templo Dor Chadash, o tempo da Rua Murillo, como é conhecido, sinagoga que começou com um par de cerimônias bar-mitzvá por ano e, quando saí, tinha mais de 165 cerimônias de bar e Bat por ano.
  • Como anda o movimento liberal/reformista em nossa comunidade?  Há espaço para crescimento?
    • Rabino Adrian: Rabino Adrian: Agradeço a pergunta, porém ela deveria ser encaminhada aos rabinos reformistas. Infelizmente existe muita desinformação.  Muitas vezes, devida a leviandade como são usados certos termos, há muita confusão. Eu sou graduado do Seminário rabínico Latino-americano que é a Escola rabínica “Conservadora “da America latina, e meu marco de referencia e o colegiado de rabinos conservadores ,a Rabbiniccal Assembly que reúne 1500 rabinos no mundo inteiro.
      As pessoas confundem minha idade e a vontade de “aggiornar”  a vida espiritual das pessoas como a reforma. 
      Quando atuava na CIP, era a mesma coisa, sendo que outro colega meu era reformista. 
      A Shalom já teve rabinos reformistas, porém hoje segue a minha linha religiosa, já que quando se contrata um rabino, a linha do rabino á se torna a linha da comunidade e Shalom segue hoje a minha linha em questões Lei Judaica ou Halachá , que é responsável e flexível, incentivando o cumprimento das mitzvot, mas sem qualquer tipo de coerção religiosa ou dogmatismo.
      O Nosso projeto espiritual, rótulos aparte e ser uma comunidade igualitária, inclusiva e pluralista.
      Existe um tremendo potencial de crescimento para os grupos não ortodoxo, seja través do movimento conservador, do reformista ou do reconstrucionista, O mais importante e que a maioria dos judeus não participa de nenhuma linha.  Felizmente o próprio crescimento da Comunidade Shalom, que passou de 50 famílias associadas para 300 famílias associadas, atendendo também um universo mais de cerca de 150 famílias freqüentadoras que não são sócias, é um exemplo das necessidades espirituais da comunidade judaica brasileira. Nas ultimas Grandes Festas no Hyatt tivemos mais de 1200 pessoas alem dos serviços infantis e juvenis. Seria uma bênção incrível para São Paulo e para o Brasil ter mais alternativas religiosas não ortodoxas que permitissem que mais judeus participassem de uma vida judaica plena.
      A chegada do Rabino Ari Glikin, em Salvador, e da Rabina Sandra Kochman, no Rio de Janeiro, colegas que estudaram no meu mesmo seminário e acredito que nos próximos 5 anos vai aumentar significativamente o número de rabinos não ortodoxos em São Paulo.
      Neste sentido, a vinda da Rabina Luciana Pajecki Lederman, em 2005, para a Shalom, vai ser nossa contribuição para aumentar a quantidade de colegas.
  • Como você analisa o crescente número de sinagogas ortodoxas em nossa cidade?  A comunidade está fazendo Tshuvá?
    • Rabino AdrianO número de sinagogas ortodoxas em São Paulo, em minha leitura, é o indicador do aumento do fundamentalismo e não necessariamente mostra um retorno à religião.  Muitas pessoas estão desencantadas com as idéias que lideraram o mundo no século XX e o pós-modernismo, que nos  obriga a escolher entre muitas coisas ,faz com que algumas pessoas se sintam “ligadas” à ortodoxia, porque é uma maneira de não ter que pensar (ortodoxo vem do grego, aquele que pensa uma única vez).
      Não acredito comunidade está fazendo Teshuvá porque o número de sinagogas ortodoxas em São Paulo aumentou. Primeiro porque não acredito que o judaísmo autêntico seja o ortodoxo.
      O  judaísmo sempre foi democrático e felizmente não temos um papa, que diz o que é certo e o que é errado.
      O Talmud é um exemplo de tolerância e pluralismo e os rabinos nele conseguem conviver com suas dissidências e nós, que estamos no século XXI, que nos achamos, mais evoluídos e modernos, não sabemos lidar com esta pluralidade.
      Buscar a recuperação da tradição judaica como patrimônio de aqueles que são menos rígidos, mas não menos responsáveis, consistentes e apaixonados seria  uma Teshuvá de verdade.
      Você sente algum tipo de discriminação para com a Comunidade Shalom pela postura igualitária entre homens e mulheres nos serviços religiosos?
      Frente à pergunta: “O judaísmo discrimina a mulher?”, a resposta mais inteligente que ouvi é: “Só se você deixar”.
      Obviamente muitas pessoas que não foram educadas no modelo pluralista e igualitário têm dificuldade de aceitar  esta postura.  Quando uma mulher lê a Torá, coloca tefilin e faz uma predica, provoca questões.  Esses problemas não têm a ver com questões teológicas e sim com questões sociológicas, que tem a ver com nossas atitudes frente às mudanças.
      Muitas pessoas falam da Shalom sem conhecerem, sem terem participado dos nossos serviços religiosos e, por isto, nossa melhor resposta é nosso próprio crescimento.  E muito normal que pessoas que vem nas primeiras vezes a nossa sinagoga s ficam surpresos quando vêem nossa intensidade e nosso fervor nos serviços religiosos. ”Como!? Não sabia que aqui se rezava tanto!”.
      Por outro lado, não podemos esquecer que existe um machismo na nossa sociedade e também na comunidade judaica paulista.  Na Hebraica, por exemplo, a mulher só começou a votar há dois anos.  Este, como tantos outros exemplos, de longo caminho que ainda temos pela frente para permitir uma participação igualitária da mulher E importante lembrar  ao fato de que no movimento conservador, desde 1985, no reformista, deste 1972 e no reconstrucionista 1976, as mulheres vêm sendo ordenadas rabinas. Esta é já uma discussão ultrapassada.
  • Quais são os planos da entidade para 2004?  Como anda o ensino judaico pela Internet?
    • Rabino Adrian: Temos planos ambiciosos para 2004, para sustentar o crescimento de nossa comunidade, já que não se pode esquecer que o estudo tem papel fundamental em nossa comunidade. Está crescendo significativamente a quantidade de pessoas nos serviços religiosos em geral em Shabatot, nos dias uteis e nos Feriados.
      Nosso Machon Shalom (para crianças de 4 a 10 anos) está crescendo assim como o número de alunos de bar e bat-mitzvá, adultos, cursos de Bíblia, mística, hebraico e healing.
      Estamos para publicar a segunda parte de nosso Sidur (Arvit e Minchá) em março e o de Shacharit de Shabat, em maio.  Nosso sidur para permitir que em nossa liturgia sejam incluídos patriarcas e matriarcas e que se transformem mitzvot negativas em positivas.  O Sidur será também utilizado nas comunidades de Porto Alegre e da Bahia.
      Além disto estamos trabalhando em um shiron de Shabat e um livro que fala sobre dor e doença, base para o grupo de healing.
      Martin Buber, expressou que uma sinagoga não é só uma atitude mental: precisamos traduzir o significado da Torá, da nossa fé e das nossas preces, em ações. Por isso estamos orgulhosos que no próximo 18 de março, estaremos inaugurando a nova sede da OAT (Oficina Abrigada de Trabalho), que é mais um exemplo de nosso trabalho de tikun olam.  A nova) vai permitir que mais aprendizes possam ser treinados e inseridos no mercado de trabalho.
      No final de março estaremos recebendo o Rabino Dr. Neil Gillman, que virá a São Paulo, como outros vieram no passado, para nos ajudar e nos  motivar a estudarmos um pouco mais.  Ele vem par nosso projeto de e-learning, ShalomWeb, nossos cursos de judaísmo pela Internet, uma bela surpresa que no ano passado teve mais de 45 alunos participando do curso de Introdução ao Judaísmo Nível I.  Estaremos disponibilizando  vários cursos do Prof. Gillman, em português, e novos cursos estão sendo preparados.
  • Vocês receberão em breve a primeira rabina de São Paulo para trabalhar na Shalom.  Quais são seus planos para ela?  Você acredita que ela será bem recebida pela comunidade em geral?
    • Rabino Adrian: Estamos trabalhando desde agora par que Luciana possa inserir-se em nossa comunidade da melhor maneira.  Ela está aumentando a freqüência de suas vindas a São Paulo, não somente para Rosh Hashaná e Iom Kipur, para ser conhecida.  Sabemos que não vai ser fácil, mas a Shalom é corajosa e não podermos ser inclusivos só na teoria e ter uma rabina vai possibilitar uma nova forma de relacionamento com a comunidade.  É com orgulho que, prata da casa, ela possa ser a primeira rabina brasileira a trabalhar em São Paulo e no Brasil. Acredito que nos próximos 10/15 anos isto vai ser rotineiro.
  • Pergunta:O que esperar para os próximos anos no Oriente Médio?  Você acredita na paz?
    • Rabino Adrian: Eu sou otimista, mas não ingênuo.  O acordo de paz com os árabes é um caminho longo, duro, cheio de dificuldades.  Toda minha família (pais, irmão, sobrinhos) mora em Israel e esta pergunta é para mim não é teórica ela é prática.  Estou ligado a Israel por vínculos familiares e não só espirituais e históricos.
      Tanto árabes como israelenses têm que encontrar uma fórmula para o convívio pacifico dos dois povos porém com segurança para os habitantes de Israel.  Mas temos que ser criativos para formular novos planos de paz , mais realistas.
      Para a tradição judaica, 56 anos de nossa Medina é pouco tempo, desde a perspectiva da historia de osso povo.  Israel é muito jovem e nos não podemos  desesperar.  A paz vai chegar, mas precisa de lideranças responsáveis, tanto fora como dentro de Israel.

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