A História de Chanuká
Nós escolhemos escrever uma história de Chanucá, para famílias, que seja a mais próxima possível dos relatos históricos à nossa disposição.
Ao recontar a história nós tentamos mostrar que as origens de Chanuca envolvem uma luta civil e fortes diferenças de opinião dentro da comunidade judaica bem como pressão sobre a comunidade judaica por parte de um governador estrangeiro com poderes na terra deles. O conflito no núcleo da história de Chanuca é sobre a questão da assimilação à cultura majoritária.
De onde veio a história do óleo que durou oito dias¹?
É uma história encontrada primeiramente no Talmud, produto de algumas centenas de anos depois dos macabeus, mas claramente numa época em que a festividade de Chanucá (como modo de comemorar eventos históricos) ainda estava em seus estágios de formação. (Isso é dito como resposta a um rabino que fez a pergunta: "o que é Chanucá"?)
A história capturou a imaginação judaica por dois motivos.
O primeiro é que essa é uma história encantadora curta, doce e clara; mais fácil de lidar e muito mais magnética do que os complexos relatos históricos.
O segundo é que se pudermos ler a linguagem metafórica dos rabinos, é também uma história ³verdadeira² um tipo de versão curta do relato histórico: o óleo simboliza o espírito (coragem, força, desejo) do povo judeu que provou ser milgrosamente duradouro mais do que qualquer um pensou que fosse possível.
A notável sobrevivência do nosso povo é o milagre de Chanucá.
Contar às crianças somente a história do óleo rouba à festividade muito do seu poder de nos falar hoje. O que é especial, bem como o desafio e conflito inerentes a ser minoria, é ser um judeu num mundo não judeu, está à nossa frente assim como estava à frente dos macabeus.
Cada criança que pergunta O por que eu tenho que ir à escola judaica²? ou que diz ³eu gostaria de poder festejar o natal², está levantando a mesma questão com a qual Iehuda Hamacabi teve que lidar. Ele resolveu a questão naquela época ao seu modo. Como pais e professores nós trabalhamos tentando resolver isso na nossa época, à nossa moda. O óleo ainda queima!
Muitos de nós aprenderam, como crianças, a pensar sobre ³milagre² como um evento sobrenatural como um tipo de suspensão mágica das leis da natureza. Definida dessa maneira, a crença em milagres se tornou para alguns de nós um tipo de teste problemático de fé... mas na verdade, da nossa perspectiva judaica, a questão correta sobre milagres não é ³você acredita em milagres²? (que é a que nós geralmente ouvimos) mas sim ³que milagres você vivenciou hoje²?
A palavra milagre deriva da palavra latina Omirari¹ significando maravilha. De acordo com vários pensadores modernos, a experiência do milagre deriva da capacidade humana de se maravilhar. Esta capacidade de se maravilhar, que Martin Buber chamou de ³permanente surpresa² e Abraham Joshua Heschel chamou de ³perplexidade radical² é a matéria prima da qual os milagres são feitos.
Um evento extraordinário (o Êxodo do Egito, a vitória dos macabeus que recordamos nesta época do ano, a recaptura de Jerusalém na Guerra dos Seis Dias) é o tipo de evento que provavelmente receberia o rótulo de ³milagre², mas o Sidur nos ensina uma perspectiva complementar sobre milagre, ao incluir a frase ³agradecemos pelos .........teus milagres diários² entre aquelas preces ditas três vezes por dia.
Dessa maneira, eventos que seriam comuns, como o nascimento de um bebê, o odor de uma flor, a recuperação física depois de uma doença também são milagres. A habilidade de vivenciar milagres diariamente está no núcleo da visão judaica mundial.
Visto dessa maneira, um milagre não é nem sobrenatural nem sobre-histórico, mas um evento que encontra as pessoa que o vivenciam como milagre.
Em Chanucá nós celebramos um milagre que cai na categoria de ³evento extraordinário². Este tipo de milagre, diz Buber, tem como ponto inicial uma surpresa duradoura. ³Os grandes pontos críticos na história religiosa estão baseados no fato de que algo acontece e intervém na vida² de um grupo que sente e vivencia isso como um milagre. Eles se surpreendem e continuam se surpreendendo. Até onde conseguimos ver os eventos do período macabeu como ponto crítico na história judaica, estamos envolvidos neste processo. Nós podemos enxergar como se tornou um ³milagre² e como foi passado para nós como ³milagre². Quando celebramos Chanucá nós mantemos vivo o milagre que inspirou o evento original. Nós passamos adiante o milagre.
Quando nós acendemos as velas de Chanucá e colocamos a Chanukiá na janela, nós estamos celebrando o milagre e também nos tornando parte dele.
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