Maí Chanucá - O que é Chanucá
Rabino Adrián Gottfried
Maí Chanucá – “o que é Chanucá” – pergunta o Talmud. Após refletir um pouco, esta é uma pergunta estranha para os rabinos do Talmud fazerem. Será que eles não sabiam o que a festa de Chanuca comemora? Não foram eles mesmos que decretaram que Chanucá seria uma celebração de oito dias, começando no dia 25 de kislev?
Todos nós temos conhecimento, até certo ponto, da história de Chanucá, da vitória dos bravos Macabeus contra os Gregos e do milagre do óleo que durou oito dias ao invés de um. Examinando mais profundamente, a história da festa de Chanucá não está clara, e a história também não é tão simples.
Vale a pena examinar a versão comum, antes de analisarmos detalhadamente as suas fontes. No quarto século A.C., Alexandre o Grande com seu exército grego conquistou o Oriente, incluindo Israel. Após a sua morte, seu império desmoronou. A terra de Israel, depois de um período de luta, acabou sendo dominada pela dinastia selêucida, que governava a região da Síria. No ano 167 A.C, o rei Antiochus Epiphanes decidiu obrigar todos os povos sob o seu domínio a se helenizarem. A prática de rituais judaicos como o Shabat e a circuncisão foram banidas. A adoração a Deuses gregos e o sacrifício de porcos substituiu a adoração tradicional no templo. Alguns judeus se reuniam ansiosamente no ginásio, símbolo da ênfase grega na beleza e força do corpo. Outros resistiram ao helenismo e morreram como mártires.
Certo dia os gregos vieram à aldeia de Modiín e colocaram um altar. Eles ordenaram que os judeus trouxessem um porco como sacrifício para mostrar obediência ao decreto de Antiochus. Matitiau, um velho sacerdote, ficou tão enfurecido ao ver um judeu ao ponto de fazer isso, que ele o matou. Ele e seus cinco filhos brigaram contra essa atitude dos gregos, se retiraram para as montanhas, e começaram uma guerrilha contra os gregos e seus aliados judeus. Antes de morrer (de velhice), Matitiau passou a liderança para o seu filho Judá, o Macabeu. Judá lutou contra uma série de exércitos enviados por Antiochus, e através de sua estratégia superior e valentia derrotou a todos eles. Finalmente, ele e seus seguidores libertaram Jerusalém e reformaram o templo que tinha sido pervertido pelos gregos. Eles encontraram apenas um pequeno jarro de óleo, suficiente para apenas um dia, mas ao acenderem a Menorá do templo com este óleo, um milagre aconteceu e a Menorá ficou acesa por oito dias. Desde então, nós celebramos Chanucá para recordar os Macabeus e a sua luta pela independência contra os Gregos, e sobre tudo o milagre do óleo.
Chanucá é a festa judaica mais documentada historicamente. Temos fontes anteriores dessa história no 1º e 2º livro dos Macabéus e nos trabalhos de Flávio Josefus. Temos relatos que apareceram mais tarde, no Talmud e em outras literaturas rabínicas. Há até uma obra medieval chamada Meguilat Antiochus, que foi moldada segundo o livro bíblico de Ester. O problema que enfrentamos é que em nenhum desses relatos encontramos a história como foi contada acima e como ela é popularmente conhecida. Examinemos cada um desses relatos e especulemos qual deles é verdadeiro.
Onde está o Milagre?
As primeiras versões são encontradas no 1º e 2º livro dos Macabéus. Apesar de que estes livros contem a história dos Macabéus, elas não se tornaram parte da Bíblia Hebraica. Eles foram preservados pela igreja e podem ser encontrados em coleções da literatura apócrifa. Portanto, Chanuká é a única grande festa que não tem nenhuma base bíblica.
A história encontrada no 1º e 2º livro dos Macabeus (com algumas variações entre os 2 livros) é bem similar à história que contamos anteriormente, exceto por uma grande exceção – não há nenhuma menção ao jarro de óleo nem ao milagre. Enquanto os dois livros mencionam a limpeza e re-dedicação ao templo e até mesmo fazem uma breve menção ao reacendimento das luminárias no templo, nada é dito sobre o milagre. Chanucá é instituída especificamente por oito dias, não por causa do milagre da Menorá, mas porque foi modelada segundo a festa de Sucot, que os Macabeus não puderam observar porque ainda eram fugitivos nas montanhas da Judéia.
No relato de Flávio Josefus, o historiador judeu do 1º século da Era Comum, novamente o milagre não é mencionado, mas ele chama esta festa de “luzes”.
Esperávamos que as fontes rabínicas nos trouxessem leis sobre o acendimento das velas, na Mishná (a primeira coleção de material rabínico). Na verdade, esperávamos por todo um tratado voltado a Chanucá, assim como há um para Purim (o tratado Meguilá). Mas, ao invés disso, encontramos na Mishná um silêncio virtual sobre Chanucá. Só na Guemará (o último material rabínico que compõe o Talmud junto com a Mishná) encontramos nosso perdido milagre de Chanucá. No tratado Shabat 21b, a Guemará pergunta, “O que é Chanucá”? e responde dizendo que os gregos desonraram o tempo, e quando os Chashmonaim (um outro nome para os macabeus e seus descendentes) os derrotaram, os judeus encontraram apenas um jarro de óleo com o selo intacto. Lá havia óleo para apenas um dia, mas um milagre aconteceu e a Menorá ficou acesa por 8 dias.
Devemos notar que o relato do Talmud dá pouquíssima importância à vitória militar dos Macabeus e, ao invés disso, enfoca o milagre do óleo. Eruditos especulam que a diferença entre os textos reflete a história da festa. Primeiro, Chanucá era celebrado como a recordação da vitória dos Macabeus. Marcava também a re-dedicação (Chanucá significa dedicação) ao templo. Apenas mais tarde o milagre do óleo dominou a vitória militar. A alteração de focos pode ser atribuída à história subsequente dos Chashmonaim. A dinastia dos Chashmonaim, com o passar do tempo, se tornou helenizada e, sobretudo, alguns deles se opuseram e até perseguiram os rabinos. Esta última história obscura anulou o breve e brilhante período do seu início. Isto poderia explicar o silêncio da Mishná. Outros especulam que nos tempos da Mishná, os rabinos, vivendo sob o governo Romano, podem ter se sentido obrigados a censurar uma história de uma revolta bem sucedida de um pequeno número de judeus contra um inimigo poderoso. A Mishná foi escrita depois das desastrosas revoltas de 70 d.c. (quando o segundo templo foi destruído) e de 135 d.c. (a rebelião de Bar Kochba). Tanto para satisfazer os romanos quanto para desencorajar outros Judeus de serem inspirados pelos Macabeus, a Mishná pode ter minimizado o significado militar de Chanucá.
Finalmente, a gente pode teorizar isto porque a independência do estado Chashmonaí durou menos de cem anos, a importância da vitória dos Macabéus foi diminuindo com o tempo, até parecer um momento relativamente breve na história de Israel. Outras datas no calendário Judaico deste período passaram também subsequentemente obscuras – por exemplo, o dia da vitória de Judá sobre o general Nicanor era celebrada em 13 Adar (que mais tarde se tornou o Jejum de Ester). Para assegurar que a importância de Chanucá durasse, então, a tradição decidiu enfatizar o seu significado espiritual e o seu símbolo – a Menorá.
A despeito desta história ambígua, Chanucá continuou sendo popular e os rabinos estabeleceram regras para o acendimento das velas. Enquanto estas comemoravam o milagre do óleo, a lenda dos Macabéus nunca desapareceu completamente de Chanucá. Portanto nós também recitamos a prece Al Hanissim na Amidá e na prece após as refeições – Birkat Hamazon – que enfatiza a vitória militar e menciona apenas levemente o acendimento da Menorá do templo, sem nenhuma referência ao milagre.
O desafio de Chanucá
Chanucá como festividade continuou mudando e se desenvolvendo. Durante a Idade Média, o foco de Chanucá continuou no milagre do óleo, apesar de que as histórias de valentia dos Macabéus eram bem conhecidas. Enquanto os primeiros e os segundos Macabéus, bem como Flávio Josefus, eram desconhecidos para a maioria dos Judeus, estas histórias foram registradas em vários midrashim ou coleções de lendas folclóricas ou na Meguilat Antiochus. Algumas comunidades lêem o rolo de Antiochus durante Chanucá. Estranhamente, este rolo, que fala tanto sobre o milagre quanto da vitória, diminui o papel de Judá e, ao invés disso, faz do seu irmão Jonathan o herói chefe. Meguilat Antiochus pode ser encontrada em alguns sidurim.
No Hemisfério Norte, Chanucá tem sido influenciado pela celebração do Natal. Enquanto a tradição de dar Chanucá Guelt – dinheiro – é antiga, a proximidade ao Natal fez com que dar presentes fosse uma parte intrínseca da festa.
Em geral, a tentativa de criar um equivalente judaico para o Natal deu a Chanucá maior significado no ciclo das festas do que teria no passado.
Entretanto, para muitas famílias judias, Chanucá é muito mais importante que as festas bíblicas de Sucot e Shavuot.
No estado de Israel, o aspecto nacionalista e militar da festa passam a desempenhar novamente um papel principal. A luta heróica dos Macabéus contra um inimigo muito maior, é, sem dúvida, muito relacionada com a auto-imagem de Israel. Celebrações são feitas em Modiín, a cidade natal dos Macabéus, e tochas de liberdade são carregadas por atletas de todas as parte de Israel e mesmo, por avião, para outros países.
E portanto a resposta à simples pergunta Maí chanucá – o que é Chanucá? Continuou a ser como a chama flamejante da Menorá. A chama nunca parece a mesma de um instante para o outro, mas como núcleo permanece inalterada.
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