Clonagem
A clonagem ou seja, manipulação do DNA (o código químico que programa cada célula do corpo) de um organismo para produzir um outro organismo - já tem sido utilizada comercialmente para produzir alimentos, no entanto, até o advento de Dolly estes temas que já tinham sido discutidos na mídia pública ganharam uma outra perspectiva, a ovelha clonada a partir do ubre de uma ovelha adulta, na Escócia em 1996. colocou o tema em discussão.
Ainda que ovelha Dolly, o primeiro mamífero clonado de uma célula adulta, foi sacrificada com seis anos de idade, após ser diagnosticada com uma doença pulmonar progressiva. Em 2002, foi anunciado que ela desenvolveu artrite, aumentando o debate sobre as conseqüências da clonagem. Em 1999, cientistas notaram que as células de seu corpo mostravam sinais de envelhecimento precoce. No ano passado, foi anunciado que ela desenvolveu artrite, aumentando o debate sobre as conseqüências da clonagem.
Dolly trouxe a clonagem e nos traz de volta aos princípios dos capítulos iniciais de Gênesis, definindo nossa relação com Deus e com o universo de Deus., Adão e Eva são colocados no Jardim do Éden "para trabalhá-lo e preservá-lo" (Gênesis 2:I5).
Desde que preservemos a natureza, então, teremos o direito e o dever de trabalhá-la para satisfazer as necessidades humanas. Em uma frase talmúdica paralela, nós "somos os parceiros de Deus no ato contínuo da criação" quando melhoramos a parte destinada ao homem na vida.
Devemos então alcançar o equilíbrio entre nossas ações e as de Deus. No cenário médico, a tradição judaica é muito explícita sobre o modo de atingir este equilíbrio.
A Torá afirma que Deus é nosso healer. Isso, no entanto, não leva a tradição judaica a concluir que a medicina é uma intervenção humana imprópria sobre a decisão de Deus de infligir a doença, um ato de egotismo humano.
Muito pelo contrário, na interpretação rabínica da Torá, não apenas temos o direito, mas também o dever de tentar curar.
Deus ainda é nosso healer supremo e, portanto, a liturgia judaica nos incita a rezar para Deus pela cura do corpo e da alma três vezes por dia; mas o(a) médico(a), na teologia judaica, é o agente de Deus na realização de tal tarefa e, sendo assim, a utilização das artes médicas não apenas é permitida, mas exigida. De fato, os, judeus não podem viver em uma cidade que não tenha um(a) médico(a).
Este modelo de equilíbrio dos papéis humano e divino no cuidado médico tornou a tradição judaica bem pro-ativa e agressiva na tentativa de promover a saúde, tanto de forma preventiva quanto curativa.
A clonagem humana certamente expande o limite deste guarda-chuva, mas em última análise, deve ser compreendida dentro destes parâmetros.
A clonagem de plantas ou animais para efeito de cura, ou a clonagem de tomates ou de vacas para efeito de alimento, se encaixaria assim dentro da obrigação humana em fornecer alimento e cuidados médicos, melhorando conseqüentemente o mundo desde que prestemos a atenção devida aos riscos para o meio-ambiente e que tomemos as precauções para evitar tais riscos.
O mesmo princípio se aplica à clonagem humana: se utilizada para curar enfermidades ou vencer a infertilidade, é uma atividade permitida para nós enquanto parceiros de Deus, com a condição que estabeleçamos os princípios morais acima discutidos.
Não podemos prever todo resultado possível, é claro, e conseqüentemente, devemos ficar especialmente alertas ao risco de manipularmos a estrutura genética do meio-ambiente através da engenharia genética ou, quando erros ocorram através da clonagem. Embora a possibilidade de erros exija precauções, não exclui automaticamente a clonagem, pois não se espera que sejamos tão oniscientes quanto Deus.
Além disso, temos como mandamento alimentar os outros e curar os enfermos, e a clonagem e a engenharia genética nos oferecem meios mais eficientes para realizarmos tais objetivos.
O PERIGO DA AUTO-IDOLATRIA. A clonagem humana ameaça prejudicar nossa humildade e nosso sentido de limitação em dois modelos importantes: a clonagem tornará possível a reprodução assexuada, e parece prometer a imortalidade.
OS DIREITOS E PROBLEMAS ESPECIAIS DO CLONE. Deve-se prestar atenção especial quanto ao destino do clone. Não se pode negar legitimamente ao clone nenhum direito ou proteção outorgados a outra criança. Imagens de clones, na literatura ou em filmes, como sendo escravos de seu(sua) criador(a), nos torna instintivamente receosos de que os clones possam não ser tratados com seres humanos. Se a clonagem de seres humanos se tornar possível, ela irá produzir pessoas independentes com suas próprias histórias e influências, e com livro arbítrio. Esta independência deverá ser reconhecida integralmente por todas as partes envolvidas.
OS USOS DA CLONAGEM. Para quais fins a clonagem seria utilizada? Até agora nós assumimos que a clonagem seria utilizada para os louváveis fins morais de vencer a infertilidade e de aumentar a capacidade humana de compreender e curar enfermidades. Entretanto, mesmo estes usos elogiáveis deveriam ser regulamentados para evitar armadilhas morais. Especificamente, dever-se-ia assegurar aos clones humanos as mesmas proteções outorgadas a qualquer outro sujeito humano utilizado em pesquisas científicas, e as crianças nascidas através da clonagem deveriam receber as mesmas proteções e direitos concedidos às crianças nascidas através de relações sexuais.
Assim que a tecnologia para a clonagem de humanos estiver desenvolvida, estará exposta também a abusos. Embora pudesse ser legítimo, do ponto de vista moral e judaico, se produzir um clone com a intenção de transplantar a medula para uma pessoa com leucemia, desde que a intenção das pessoas envolvidas fosse criar o clone como qualquer outra criança, seria absolutamente ilegítimo, pela ótica moral e judaica, produzir o clone, realizar o transplante e, então, destruir o clone, seja no útero ou após o parto. A coleta do órgão nestes termos deverá ser proibida, se a clonagem humana for permitida.
Da mesma forma, a clonagem não deve ser utilizada como um esforço na criação de seres humanos "modelos". Assim como as cruéis experiências médicas nazistas em seres humanos assombram o cenário de qualquer discussão sobre a utilização de sujeitos humanos nas experiências médicas atuais, a tentativa da eugenia nazista também permeia inevitavelmente a opinião pública em qualquer consideração sobre a clonagem humana, e certamente preocupa a mente judaica. Qualquer utilização da clonagem na tentativa de criar uma população "ideal" deve ser inequivocamente proibida.
Recomendações para Pesquisa de Orientação Moral
Considerando o legado judaico moral, legal e teológico, eu recomendaria o seguinte:
A clonagem humana deve ser regulamentada, não banida. A exigência judaica de que nos empenhemos o máximo para propiciar o healing faz com que seja importante aproveitar a potencialidade da clonagem para nos auxiliar a buscar curas para uma série de enfermidades, e para a superação da infertilidade.
No entanto, os perigos da clonagem exigem supervisão e restrições. Especificamente, a clonagem deveria ser permitida apenas para pesquisa e terapia médica; aos clones devemos outorgar status integral e igual ao dos outros fetos ou seres humanos, com as proteções equivalentes; e devemos planejar políticas cuidadosas para determinar como os erros de clonagem serão identificados e tratados.
Além disso, fingir que a clonagem humana não acontecerá se for banida das experiências patrocinadas por recursos públicos é algo simplesmente ilusório, ela acontecerá com recursos privados ou públicos. Conseqüentemente, os perigos da clonagem, tornam obrigatório que sua prática seja divulgada, supervisionada e regulamentada.
Acredito que a regulamentação deveria ser conseguida em parte via legislação, mas isto só irá funcionar até um certo nível. c e conselhos de revisão institucional também devem ser convocados para assegurar que as questões morais orientem a pesquisa sobre clonagem humana.
Como membro dos comitê de ética organizacional de alguns hospitais, fiquei tremendamente impressionado pela seriedade com a qual os membros destes conselhos cumprem suas responsabilidades.
Se minha experiência servir de alguma indicação, existem todos os motivos para se confiar em tais comitês para que estabeleçam um plano de alta qualidade moral para a pesquisa sobre clonagem humana. Além disso, a regulamentação governamental não pode talvez antecipar todos os desdobramentos da clonagem, conforme forem ocorrendo, enquanto que os comitês hospitalares podem considerar tais desdobramentos tão logo aconteçam.
Mais importante ainda, enquanto a legislação governamental impõe regras exógenas e faz com que as equipes médicas sintam julgadas moralmente suspeitas, a auto-regulamentação através de comitês hospitalares apela para as melhores intenções das mesmas equipes médicas e, sendo assim, tem mais probabilidade de ser eficiente.
O Rabino Adrián Gottfried e rabino da Comunidade Shalom em São Paulo, faz parte do comitê de ética organizacional do Hospital Israelita Albert Einstein e o idealizador do Núcleo de Healing e Bikur Cholim da Comunidade Shalom, único em America Latina, que busca promover o Healing pessoal e comunitário, contribuindo para a reconexão da pessoa com seus recursos espirituais, utilizando as tradições judaicas..
www.shalom.org.br/healing
Rabino Adrián Gottfried
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