O conceito judaico da morte
Apesar de que haja uma variedade de entendimentos da alma na tradição Judaica, o ponto inicial comum é nada menos que uma extensão de Deus. Ao moldar Adam, a Torá diz, "Deus formou Adam do pó do solo, e soprou em suas narinas a ‘neshama' da vida; e então Adam se tornou uma criatura viva" (Gênesis 2:7). Em Hebraico há três palavras que são usadas para hálito nefesh, ruach e neshama palavras que na tradição judaica mística também são utilizadas para descrever facetas da alma.
A imagem do hálito é intangível, anima a vida, e nos liga à fonte da criação.
Os rabinos do Talmud da Babilônia (basicamente completado no século V da E.C.) elaborou o vínculo entre a alma e a sua fonte da seguinte maneira:
Assim como Deus preenche o mundo inteiro, da mesma maneira a alma preenche o corpo inteiro. Assim como Deus vê mas não pode ser visto, assim também a alma vê, mas não pode ser vista. Assim como Deus nutre o mundo inteiro, assim a alma nutre o corpo inteiro. Assim como Deus é puro, assim a alma é pura. Assim como Deus habita na parte mais secreta do Universo, assim também a alma habita na parte mais secreta do corpo.
Caracterizar a alma como uma extensão de Deus me ajuda a perceber porque a alma é tão difícil de ser definida. Deus é outro, nem objeto nem pessoa. Para vivenciar Deus e alma requer certo afastamento da nosso próprio auto-envolvimento, o nosso "Eu".
A imagem da alma como um hálito ajuda a transmitir um paradoxo. Apesar de que normalmente não vejamos a nossa respiração, se pegarmos um espelho, respirarmos profundamente e exalarmos, poderemos ver o nosso hálito como um filme no espelho. Quanto mais hálito vermos, menos reflexos vemos de nós mesmos. Definir objetos é pegá-los com os nossos sentidos, o que requer um conhecimento de nós mesmos. Quanto mais plenamente encontramos a alma, mais o nosso "Eu" do auto-conhecimento e conexão retrocedem.
A chama é uma imagem de que o Zohar, o comentário místico clássico na Torá composto no final do século XIII, costuma expressar a natureza multifacetada da alma. Eu acho esta imagem particularmente útil. A alma como faísca divina possui qualidades de luz. É pura, dinâmica, e a ferramenta da consciência, que permite o esclarecimento. Além disso, as faixas de cores numa chama, variando de azul a laranja a amarelo, transmitem que a alma, também, é composta de qualidade complementares. O Zohar descreve três dimensões de alma nefesh, ruach e neshama (as mesmas três palavras para hálito) e as correlaciona com facetas da existência humana interior.
Num nível mais cósmico elas são descritas com reinos separados da criação. Entender o enfoque judaico da alma requer uma análise destas três dimensões da alma como descrito no Zohar.
A descrição do Judaísmo de uma alma multifacetada e integrada evoluiu através do milênio. Nos Cinco Livros de Moisés não há nenhuma distinção aberta entre corpo e alma. Para alguns dos primeiros rabinos, o corpo e a alma foram vistos como componentes separados mas interdependentes. Sob esse ponto de vista a seguinte parábola é contada sobre o julgamento de Deus no fim dos dias:
O proprietário de um pomar designou que um homem aleijado e um homem cego deveriam guardar o seu pomar, pensando que devido aos seus defeitos cada um deles seria incapaz de qualquer injúria. Entretanto, os dois guardas conspiraram roubar e comer as frutas, com o aleijado sentado nos ombros do cego. Quando eles foram acusados de ter procedido mal cada um alegou ser inocente um falando da sua inabilidade de enxergar e o outro da sua inabilidade de andar. O dono do pomar colocou o homem aleijado nos ombros do cego e os julgou como se fossem um.
Os rabinos do Talmud emitiram diferentes opiniões sobre a habilidade da alma de sobreviver sem o corpo. De acordo com alguns, nem o corpo nem a alma poderiam sobreviver um sem o outro. Um outro ponto de vista aparentemente mais vasto foi de que a alma pode ter uma vida de plena consciência quando desencorporado, que se tornou o ponto de vista dominante nos escritos pós-talmúdicos (do VI século em diante). Este ponto de vista é o conceito básico da crença essencial na habilidade do médium de conferenciar com o falecido.
Os filósofos medievais debateram a natureza da alma e o degrau no qual cada identidade individual foi ligada à alma na vida após a morte. Extraindo dos pontos de visto expressos anteriormente no Talmud, a mística no período medieval moldou uma compreensão da alma que mais tarde permearia e dominaria o auto entendimento comunitário. Nesta articulação, a alma foi multifacetada, única, e imortal, e entrou no corpo para cumprir uma tarefa particular para esta vida. A alma, foi assim enfatizada, originada de deus e portanto ofereceu a habilidade de imitar (apesar de não representar) o criador.
O corpo e a alma, houve uma conformidade de opiniões entre os filósofos e místicos da idade média, eram interdependentes. Assim como o vinho tinge o frasco e o frasco influencia o gosto do vinho, assim o corpo e a alma se permeiam e ainda são distintos. Além disso, a alma é cultivada em estágios enquanto encerrada no corpo. A alma é criada nesta vida através da luta entre forças opostas: luxúria animal por um lado, e discernimento e determinação do outro. Esta luta interior leva potencialmente à auto consciência, aspirações mais altas, e integração interna. Nas palavras de Saadia Gaon (Egito-Babilônia 882-942 E.C.): "a alma exige os bons atos do corpo para aperfeiçoar a sua substância peculiarmente imaterial, celestial, assim como o corpo precisa das faculdades da sensação e razão que a alma oferece".
Minha leitura de autores contemporâneos e textos judaicos sagrados me deixou humilhado na tentativa de definir a alma. Qualquer tentativa de definir a alma claramente, palavras inequívocas resultaram em distorção ou loquacidade.
Entretanto a minha exploração me deixou mais agudamente consciente de que há uma parte única de cada um de nós, uma chama divina que anima todas as facetas das nossas vidas e nos une com a fonte da unicidade. Esta vida oferece escolhas difíceis através das quais nós podemos elevar e refinar a nossa alma. Ao mesmo tempo, como um leitor da Bíblia eu estava ciente de que a Torá, os Cinco Livros de Moisés, não discutem o mundo vindouro ou a sobrevivência da alma. Isto me deixou perplexo e curioso. O que acontece com a nossa alma depois do fim dos nossos corpos?
Rabino Adrián Gottfried
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