O Dilema Religioso do Desemprego
Na Argentina, como no Brasil, o desemprego passou a ser um problema preocupante. O Rabino Goldman, de Buenos Aires, nos oferece uma interessante análise do desemprego, do ponto de vista da ética e da teologia judaicas.
Há algumas semanas defrontei-me com um sério questionamento teológico, que corresponde à realidade social dos nossos tempos. Um membro da minha comunidade me procurou na Sinagoga e me disse: "Rabino, faz alguns meses que estou desempregado. Desespera-me a idéia de pensar que o meu trabalho seja o de procurar trabalho. Sinto que a minha criatividade está esgotada, e no meu dia-a-dia não sinto nenhuma diferença entre os dias úteis e o fim de semana. O mandamento bíblico diz que eu devo santificar o dia do Shabat, observando o repouso neste dia. Mas a minha sensação és que se não tenho trabalho, o descanso se transforma em uma opressão e não em um prazer. Será que estou obrigado a observar as leis do descanso sabático?"
Ao escutar a inquietude deste homem, recordei o relato talmúdico em que Deus, identificando-se com a dor e a miséria do homem, derrama lágrimas diante da aflição de cada criatura e até pude imaginar um pranto inesgotável, ao imaginá-lo sentindo a angústia de um desempregado.
Este questionamento me deixou com um gosto profundamente amargo, que ampliou o meu desafio de dar uma resposta, a ele e aos milhares de desempregados, a partir do meu compromisso religioso e através das fontes sagradas da nossa tradição.
Existe uma resposta judaica ao desemprego?
Façamos, por alguns instantes, uma reflexão teológica sobre a Criação. Diz o texto bíblico: "Foi a tarde, foi a manhã do sexto dia. E se concluiu a criação do céu e da terra" (Gênesis 1:31 b, 2:1 a). De acordo com estes versículos, o repouso sabático começa a partir do momento em que o Eterno "deixa de criar". A Criação pode ser apreciada a partir do próprio instante em que Deus reconheceu a necessidade do descanso. O descanso é a possibilidade do espírito contemplar a obra da Criação.
Seguindo esta linha de pensamento, tendo sido o homem criado à imagem e semelhança Divina, também este se regozija e encontra prazer no Sétimo Dia, o Shabat, unicamente quando contempla a obra de suas mãos. Ou seja, o espírito sabático requer uma criação prévia. Se não houve criação, não há Shabat. A paz do sábado só adquire significado se, durante a semana que acaba de passar, o homem pôde desenvolver seu potencial de esforço criativo, seu trabalho que integra sua convivência social. E só assim tem sentido a celebração.
O Shabat significa simplesmente a celebração de um tempo diferente, separado da atividade da semana que terminou. Segundo esta lógica, a obrigação de trabalhar durante os seis primeiros dias da semana é um Mandamento Divino, que deve ser colocado na mesma categoria que o Descanso Sabático e que deriva da oposição a este. O Shabat não tem sentido se o ser humano não trabalha.
Assim sendo, uma vez que os mandamentos judaicos nos impõem a obrigação da observância do Shabat, no espírito da mesma lei, existe também a obrigação ético-religiosa de gerar postos de trabalho criativos e úteis.
O Shabat e o trabalho são as duas faces de uma mesma moeda. Neste sentido, se o Shabat e o trabalho são as duas faces da mesma moeda, o desemprego é um atentado contra o plano Divino.
Trabalhar e orar
Em hebraico, a palavra Avodá, que significa trabalho, é a mesma que utilizamos para nos referirmos à ação de rezar. Esta forma sugestiva do idioma bíblico nos indica que o trabalho é uma das maneiras de estabelecer um vínculo com o Eterno. De acordo com a teologia judaica, podemos pensar que fechar uma fonte de trabalho é atrofiar espiritualmente um ser humano, porque na linguagem religiosa significa obstruir um canal de relação com Deus.
Por isto o desemprego é um profundo problema religioso. Falar de trabalho é falar de Deus, e falar de ausência de trabalho és falar da ausência da aliança entre o homem e Deus.
Neste caso o Shabat não tem sentido?
Em uma outra perspectiva, o Shabat simboliza voltar a trazer Deus à nossa vida, instaurando Sua majestade diante da indiferença do resto dos dias. O Shabat é o tempo que ajuda o ser humano deprimido a encontrar forças para reconhecer que, ao encontrar-se em congregação, pode receber afeto e amor.
Os sábios nos recordam que ninguém pode ser anônimo na mística do Shabat, porque a própria natureza do dia é uma fonte de esperança, para acreditar que tudo pode mudar, mesmo que a realidade pareça obscura e sem sentido.
Mesmo sem trabalho, o Shabat nos traz a confiança para enfrentar uma nova semana, que pode ser alentadoramente diferente das demais.
Que estas reflexões possam nos iluminar para estabelecer um compromisso com esta difícil época em que vivemos.
Rabino Daniel Goldman
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