Doar orgãos: Mais do que um ato de amor, Uma Mitzvá
Recentemente surgiram na imprensa diversas notícias contraditórias, relativas à doação de órgãos por judeus. Essas notícias, na verdade, foram motivadas pela trágica morte de um jovem músico, cuja família decidiu, de acordo com sua decisão prévia, doar os seus órgãos para serem transplantados. Circularam notícias de que ele até havia sido impedido de ter sido enterrado em um cemitério judaico por ter doado seus órgãos! Essas notícias foram desmentidas, mas diversos rabinos opinaram a respeito da "proibição" dos judeus doarem órgãos.
Na verdade, essa "proibição" jamais existiu. Todas as correntes do Judaísmo têm se manifestado favoráveis às doações e aos transplantes de órgãos. As únicas restrições, por parte de alguns rabinos ortodoxos, se referem à aceitação da morte cerebral como sinônimo de morte alguns rabinos acreditam que somente a parada cardíaca indica a morte, e muitos transplantes não podem ser realizados após a parada cardíaca. No quadro ao lado o leitor poderá se informar sobre os aspectos médicos da morte cerebral.
Na verdade, o mandamento de salvar uma vida " picuach nefesh " tem prioridade quase absoluta no Judaísmo (só não se aplica se para isso tivermos que cometer um assassinato, ou imoralidade sexual ou idolatria). Existe um princípio judaico denominado kevod ha-met a dignidade dos mortos. Não somos donos do nosso corpo, ele pertence a Deus. Por isso enterramos os mortos o mais rapidamente possível, e vigiamos o corpo para que nada lhe possa suceder, para que seja devolvido à terra com toda a honra possível, como um sinal de nosso amor e respeito.
Apesar da importância da kevod ha-met o mandamento de salvar a vida " picuach nefesh " tem precedência. Por isso não apenas as doações de órgãos são permitidas no Judaísmo como, na verdade, se trata de um mandamento! (o que era um "CHIUV", uma obrigação moral dentro da lei judaica, se transformou numa "MITZVÁ"). As pessoas, ou grupos de pessoas, que insistem em que a Halachá não permite a doação de órgãos, não só estão interpretando a Halachá de maneira errônea, como também são responsáveis pela grave ofensa de não salvar vidas. Até mesmo a possibilidade de salvar uma vida tem precedência sobre praticamente todas as demais mitzvot.
Se uma pessoa se encontra em uma situação de poder doar órgãos, ela tem obrigação de fazê-lo. Ao se tornar um doador de órgãos, você estará integrando um grupo de milhares de pessoas que se motivaram a proporcionar a outros seres humanos a possibilidade de cura, a esperança e a preservação da vida. O progresso da Medicina nos oferece essa oportunidade de dignificar, santificar e preservar vidas, algo que era impossível há poucos anos. Como parceiros de Deus na continuidade dos milagres da criação, precisamos estender a nossa parceria às doações de órgãos e tecidos. Ao tornar-se um doador você terá uma oportunidade única de estender o dom da vida de uma das criações de Deus você a uma outra. Assim você estará respondendo hineini à chamada de Deus.
PARADA RESPIRATÓRIA, PARADA CARDÍACA E MORTE CEREBRAL
O Talmud define como morte a parada respiratória. Os antigos rabinos levavam consigo um espelho ou uma pena, esses eram os utensílios utilizados para verificar a morte.
Aos poucos a Medicina mostrou que esse critério tinha riscos, às vezes a respiração se torna tão tênue que o diagnóstico de parada respiratória pode induzir a erros. Foi então proposta a parada cardíaca como indicativa da morte. Embora não mencionada no Talmud, a parada cardíaca, como indicativa de morte, foi aceita por todos os rabinos, mesmo pelos mais ortodoxos.
Aos poucos a Medicina mostrou que esse critério tinha riscos, às vezes a respiração se torna tão tênue que o diagnóstico de parada respiratória pode induzir a erros. Foi então proposta a parada cardíaca como indicativa da morte. Embora não mencionada no Talmud, a parada cardíaca, como indicativa de morte, foi aceita por todos os rabinos, mesmo pelos mais ortodoxos.
Atualmente esses critérios são duvidosos. Há muitas paradas respiratórias que são transitórias, e hoje estes pacientes são ligados a um respirador artificial que os mantêm respirando. Doenças que resultam em paradas respiratórias, como o tétano, deixaram de ser mortais. Aliás, o paciente em parada respiratória morre pela circunstância de seu cérebro não mais receber oxigênio, não é a parada respiratória, em si, a causa da morte.
E a parada cardíaca? Um paciente em condições favoráveis de saúde pode sobreviver a uma parada cardíaca. Massagens e choques elétricos podem fazer o coração voltar a bater. Em uma cirurgia de revascularização do miocárdio (popularmente chamada de ponte de safena) a equipe cirúrgica deliberadamente faz o coração parar, estabelecendo uma "circulação extracorpórea". Estes pacientes morreram e ressuscitaram? Certamente que não! Os seus cérebros continuaram funcionando o tempo todo. Somente após quatro minutos de parada cardíaca é que o cérebro começa a deixar de funcionar.
O conceito de morte cerebral foi estabelecido pela 22a Assembléia Médica Mundial em 1968. Trata-se da cessação de todas as atividades elétricas cerebrais, indicando que os centros que controlam a respiração, os reflexos pupilares e outros reflexos vitais já não funcionam.
Parece haver, para muitos rabinos ortodoxos, grande dificuldade em aceitar a morte cerebral, pelo fato de não ser mencionada no Talmud. Essa menção seria totalmente impossível, uma vez que a eletroencefalografia só foi descoberta na década de 1930. Além disso, o Talmud também não menciona a parada cardíaca, e todos a aceitam.
Entre os defensores do conceito de morte cerebral figuram os Rabinos Seymour Siegel Z'L, Eliot Dorff, Avram Reisner e David Golinkin, da Rabbinical Assembly, e também o Rabino Moshe Tendler, da Yeshiva University, um rabino ortodoxo considerado por todas as correntes do Judaísmo como uma grande autoridade sobre a Ética Médica Judaica. Também o Rabinato de Israel já se manifestou favoravelmente a este conceito, e já vem autorizando a realização de transplantes de coração desde 1988.
Não existem dúvidas do ponto de vista médico. Nosso cérebro tem o comando geral da nossa vida. Quando ele deixa totalmente de funcionar, morremos. Mesmo que o coração esteja batendo e os nossos pulmões, ligados ao respirador elétrico, continuem respirando.
Se você quiser estudar de forma mais profunda a legislação haláchica a respeito deste assunto, solicite à Comunidade Shalom uma cópia da monografia O Judaísmo e as Doações e Transplantes de Órgãos, que foi, inclusive, aprovada pela Comissão de Ética Médica do Hospital Israelita Albert Einstein.
Pedro Luiz Mangabeira ALbernaz
topo