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E M O R - "Santifique o novo e renove o sagrado"

Uma lei observada juntamente com os mandamentos de Pessach fala : "até aquele dia.... você não comerá pão algum ou grãos secos ou espigas frescas (o grão novo) ... (Lev. 23:14).

"A lei se refere à proibição de comer grãos novos, chamados chadash até a "contagem de Omer", no segundo dia de Pessach.

A razão parece ser que coisas novas são proibidas até que tenham recebido as bênçãos de Deus.

A lei reflete a relutância inata do povo em aceitar inovação. A história nos conta que o novo tem que lutar uma longa e difícil batalha até ser santificado pelo uso. Olhando através da história vemos numerosos exemplos onde o novo primeiro foi combatido, depois depreciado, e por último aceito, mas somente após uma longa briga.

Quando Ben Franklin descobriu que os raios eram uma forma de eletricidade, ele enviou um ensaio para ser lido em seu lugar por um amigo antes da Royal Society em Londres. Esse amigo relatou que fora "ridicularizado pelos experts".

Em 1837, Rowland Hill propôs uma selo postal para a Grã-Bretanha, ao invés de pagamento em dinheiro que era feito no envio pelo remetente; o chefe dos correios, Lord Richfield, declarou que a idéia era "inteiramente repugnante à razão".

Rachel Carson, que advertiu sobre os desastrosos efeitos do DDT e outros inseticidas, foi ridicularizada como uma profetisa da morte.

E artista inovadores, músicos e escritos freqüentemente precisam lutar contra critérios de gosto aceitos antes de obterem reconhecimento e suas inovações serem aceitas.

Se em outros campos o progresso encontra forte oposição, no campo da religião e duplamente difícil introduzir inovações.
Há um sentimento difundido de que "a religião dos velhos tempos" é a única religião verdadeira: qualquer coisa nova é suspeita. Alguns judeus consideram judaísmo genuíno somente aquele idêntico à religião vivida e praticada pelas gerações passadas.

Um rabino do século XIX cunhou a frase: chadash asur min ha-Torh, qualquer coisa nova é proibida pela Torá.
Este ponto de vista é encontrado não somente entre os judeus extremamente observantes, mas entre alguns intelectuais judeus (e outros não tão intelectuais), que consideram que somente o judaísmo do passado seja autêntico.

Uma vez que eles mesmos não podem aceitar de maneira não crítica as crenças, leis e costumes do judaísmo do passado, rejeitam o judaísmo todo.

Mas estão errados!

O Iashan, o velho, e o chadash, o novo; tradição e mudança são compatíveis.

Como em todas as outras áreas da vida humana, a mudança acontece até mesmo na religião ainda que possa ser muito mais lenta.

A maioria das pessoas não estão atentas ao fato de que muitas coisas que consideram como iashan são, na verdade, chadash.

Desenhamos nosso ancestrais dançando com a Torá em Simhat Torá, mas não há referência alguma a Simchat Torá na Bíblia ou no Talmud.

Somente a partir da Idade Média que Simchat Tora começou a desenvolver-se com um dia com costumes e práticas próprias. Kadish, Izkor e Ioratzeit foram todos desenvolvidos na Idade Média.

O belo Cabalat Shabat foi introduzido em Safe, no século XVI e o serviço da noite de sexta-feira veio no século XIX.
Quando a cerimônia de Bat Mitzvá foi instituída em 1922, foi considerada revolucionária, mas a cerimônia de Bar Mitzvá mesmo foi introduzida somente poucos séculos antes.

Você pode imaginar a Maguen David, a estrela de seis pontas, não sendo considerada como um símbolo judaico até 1897, quando o Congresso Sionista a adotou para sua bandeira branca e azul?

A Maguen David foi santificada pelo sangue dos mártires judeus, forçados por Hitler a usar a estrela amarela identificando-os como judeus. Novos feriados judaicos têm sido introduzidos nas décadas passadas. Iom Hashoa, lembrando o Holocausto, foi introduzido somente há poucas décadas e celebramos um outro novo feriado - Iom Haatzmaut, o dia da independência de Israel.

Muitos anos atrás, um madrich em Machane Ramah, se preparando animadamente para um ano em Israel, perguntou ao seu rabino: "Você também esteve em Israel quando era uma estudante?". Ele respondeu "quando eu era estudante, não havia Israel".

Quantos de nós pensamos duas vezes sobre o fato de que durante a vida de tantos de nós desta congregação não havia o Estado de Israel, menos ainda um feriado celebrando sua independência.

Tem havido muito Chadash -inovação na vida judaica. E muito do que é Iashan perdeu importância e mesmo desapareceu. Sacrifício de animais, que já foi uma grande parte de nosso ritual, não faz mais parte do judaísmo, nem mesmo o Templo.
O Sidur e o Mahzor continham muitas orações que foram cortadas ou encurtadas porque o serviço estava se tornando longo demais.

Um estudo da história do judaísmo poderia demonstrar claramente que Deus é o Deus de ambos, do Iashan e do Chadash.

A Torá não faz oposição ao hadash somente porque é novo. "Existem dois tipos de tolos," uma vez um sábio observou, "um diz - isto é velho, então é bom; o outro diz - isto é novo, então é mau".

Entretanto, a história judaica nos ensina a necessidade, quando da mudança, de mantermos o senso de continuidade do passado.

Aqui na nossa sinagoga não mudamos somente pela mudança. Cada mudança é examinada para determinar se realmente enriquecerá nossos serviços ou a vida judaica de nossos congregados. Se serve para fazer nosso judaísmo mais atraente, mais inspirador e mais criativo, então consideramos esta mudança merecedora das bênçãos de Deus e trabalhamos no sentido de torná-la parte integral da vida judaica.

Nossos esforços têm o espírito indicado pelo último rabino chefe de Israel, Rav Kook, que disse: "Santifique o novo e renove o sagrado".

Haiashan itachadesh veachadsh itkadesh

E "renovar o sagrado" representa um grande desafio, assim como "santificar o novo".

O judaísmo tem acumulado numerosas práticas e crenças que podem ter contribuído, em seus dias, para fazer a vida judaica significativa, mas pode agora obscurecer os elementos básicos do judaísmo para o judeu moderno.

Como rabino, me sinto curador de uma tradição sagrada, mas devemos empregar a mesma cautela usada pelos curadores da galeria nacional de Londres que, há muitos anos, advogaram que os quadros dos velhos mestres deveriam ser limpos por um processo recentemente descoberto.
Por esta sugestão foram chamados de sacrílegos. Muitos consideram que a fuligem acumulada pelo tempo é parte essencial dos quadros.

Não obstante os quadros foram limpos, a fuligem removida e uma nova beleza - que estava escondida - foi revelada.
É isto que tentamos ter em mente quando tratamos da renovação da vida judaica. Tentamos distinguir entre a poeira do tempo e a fé judaica viva.

Mas como judeus tradicionais, para removermos a poeira, estamos atentos para não causarmos danos irreparáveis ao judaísmo com a remoção de sua tinta com uma limpeza excessivamente vigorosa.

Rezamos para que nos anos vindouros continuemos o trabalho de "santificar o novo" enquanto, ao mesmo tempo, "renovamos o sagrado" em nossas vidas e na vida de nossos filhos.

Adrián Gottfried

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