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Healing

Esta que vamos cantar é uma música, adaptada e inspirada na prece que fazemos para pessoas enfermas, nos momentos em que se lê a Torá, na Sinagoga, acrescida do seu nome judaico. Nós também a dizemos na presença da pessoa enferma quando a visitamos.

A tradução é:Quem abençoou nossos patriarcas e matriarcas, Avraham, Itzchak e Iaacov, Sara, Rivka, Lea e Rachel, envie-nos cura completa, cura da alma e cura do corpo, e digamos Amem.

Quem já esteve nas Grandes Festas, especificamente em Yom Kipur, já ouviu o nosso Rabino Adrián oferecer uma das aliot da Torá para quem está sofrendo de alguma doença, do corpo ou da alma, ou quiser rezar por algum familiar ou amigo. A cada ano o grupo que se aproxima da Torá para esta aliá tem aumentado e muitos esperam por este momento com esperança e emoção. Eu mesma já senti o conforto que é ter o Rabino e a Comunidade concentrados, com a intenção de pedir pela recuperação da pessoa querida de quem eu dizia o nome, silenciosamente, no momento indicado.

Há pouco mais de um ano, um grupo aqui de nossa comunidade decidiu buscar no Judaísmo seus recursos espirituais para lidar com situações críticas de stress, isolamento, doenças e perdas dolorosas. Criamos o Núcleo de Healing da Comunidade Shalom, coordenados pelo Rabino Adrian.

Começamos com a seguinte pergunta:
Será que Deus responde as nossas preces?
Será que rezarmos garante a cura?
Se não formos atendidos é porque Deus se omitiu ou estará nos negando um favor por algum motivo?
Encontramos uma resposta interessante num texto maravilhoso, que está no site da Comunidade Shalom, chamado "Alguém está ouvindo?", do Rabino David Volpe. Ele cita uma metáfora de um rabino da Idade Média, Leon Módena. O Rabino Módena pede que imaginemos "um homem num barco que o está conduzindo à costa. Se a pessoa não tiver uma boa noção, pode parecer que está trazendo a costa para perto de si. Mas, no entanto, é quem está no barco que se mexe, porque a costa é fixa. Assim é, disse ele, com a prece. Nós pensamos que, quando rezamos, estamos trazendo Deus para perto de nosso desejo. Mas a prece verdadeira é bem ao contrário: ela nos leva para mais perto do desejo de Deus". Sem negar o crédito por curas milagrosas que possam acontecer, nós mudamos nossas vidas quando procuramos Deus através da prece.

Fazermos preces em momentos de aflição com um Sidur, ou enquanto dirigimos, caminhamos ou realizamos atividades do dia-a-dia , assim como contatar estórias de nossa tradição, ouvir e cantar salmos e canções, ler textos inspiradores, podem fazer a mágica de tocar sutilmente uma força curadora, poderosa, inerente a vida, que temos dentro de nós: esse é o efeito "Healen", (de onde deriva a palavra "Healing")que tem o poder de nos acalmar ou estimular. É uma força que, ativada, pode nos fazer sentir mais seguros, inteiros. A atmosfera de esperança de sermos atendidos, e o contato com valores como amor, aceitação e perdão que estão inseridos intrinsecamente nas palavras que lemos ou ouvimos contribuem grandemente para despertar e aumentar nossas possibilidades em direção a cura.

Situações cotidianas e aborrecimentos podem ser portais de conexão diários com o Healing. Triste com uma situação pela qual passei, estava lavando louça e pensando nas dificuldades, quando lembrei-me de um salmo que cantamos no Shabat. Comecei a cantá-lo enquanto pensava em suas palavras: era uma prece meio espontânea, com palavras sábias e milenares, cujo efeito logo fez-se sentir: senti-me mais calma e protegida para lidar com a situação que me antes me angustiava.

De uma forma mais ampla, a chave do Healing, além da cura propriamente dita, é poder mudar a percepção de nossas crises ou enfermidades, de forma a lhes dar novo significado e criar alternativas possíveis ao desespero, angústia ou a entrega desesperançada. O Healing é podermos nos entregar às possibilidades e a força curativa da vida e de seus caminhos em direção ao reequilíbrio, à reestruturação, à restauração, à sensação de estarmos inteiros, de nos encontrarmos de novo.

Cada um de nós pode ser um agente dessa mobilização simplesmente com sua presença e interesse genuínos. Começamos a fazer visitas para doentes: o Bikur Cholim. Descobrimos porque esta é uma mitzvá tão importante: este gesto simples tem o poder de conduzir a reconstrução de conexões com a comunidade e com Deus que estejam abaladas, e diminuir a sensação de isolamento, insignificância e vulnerabilidade de nossos doentes.O voluntário que faz a visita reza, com e pelo doente, perto de sua cama e aqui, na Sinagoga. O Talmud nos ensina que a Shchiná, presença divina, está sempre na cabeceira de cada enfermo. Sua proximidade faz, da cama do doente um lugar sagrado e fonte de bênçãos.

Curiosamente, a palavra hebraica para doença está relacionada com palavras para expressar o vazio, o desértico. Talvez se esteja falando do vazio na relação entre o indivíduo e Deus, desta relação de parceria na vida. Com Ele, temos forças para suportar doenças, perdas e renovar a coragem necessária, no dia a dia. O que fazer, então, quando Deus não é mais do que um conceito limitado, derivado de imagens da infância, rígido e inadequado para dar qualquer suporte?

Como comunidade, somos fonte poderosa de apoio, empatia, sensibilidade e compreensão. Podemos dar suporte enquanto o tempo ajuda a curar feridas causadas por perdas, vulnerabilidade, tristeza e enfermidade. Podemos permitir que o Rabino e pessoas treinadas possam ajudar a lidar com dúvidas e raiva, da vida e de Deus, enquanto a pessoa que precisa reconstrói, no seu ritmo, um conceito de Deus mais maduro, que responda a questões trazidas por tragédias que destruíram, por vezes, seus alicerces espirituais, ou tornam visível a sua falta, até que possa estar inteira, de novo.

Este é o trabalho do Núcleo de Healing da Comunidade Shalom.

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