O Judaísmo e o Meio Ambiente
Até os anos 70, o mundo ocidental não estava preocupado com a destruição do meio ambiente. Chaminés fumegantes, fumaça preta e desmatamento eram sinônimos de desenvolvimento. Como conseqüência deste pensamento, a frágil teia da vida começou a ser ameaçada e o mundo se viu face a face com grandes desastres ambientais e com os graves problemas globais e locais que hoje em dia enfrentamos.
Sabemos que o Homem sempre modificou e destruiu o seu meio ambiente, porém com o advento, primeiramente, da revolução industrial, e depois com a revolução tecnológica, esta destruição se tornou insustentável e incompatível com a vida na Terra.
Este graves problemas são contemporâneos e poderíamos supor, portanto, que não encontrássemos nenhuma menção ou preocupação sobre os mesmos na nossa Torá, ou na nossa cultura milenar, já que a realidade ambiental na época, era muito diversa.
Pois não é isso o que se verifica, quando encontramos na nossa Torá ensinamentos importantes, que vão desde regras técnicas de manejo e conservação do solo e da água, a orientações sobre ética e valores que nos levam a repensar o nosso papel como seres "racionais" e nossa responsabilidade na proteção dos ecossistemas, da nossa e outras espécies.
Neste artigo, transcrevo e comento alguns trechos extraídos da Torá, Talmud, Midrash e Salmos, que nos mostram estes ensinamentos, com a intenção de introduzir esta discussão, sem querer esgotá-la.
1. Trechos que demonstram uma visão ecocêntrica do mundo, em contraposição à visão antropocêntrica adotada no mundo ocidental.
A visão antropocêntrica do mundo, coloca o Homem como centro, sendo a espécie mais importante e central do Planeta. As outras espécies não têm o mesmo peso que a nossa. Nós podemos manipulá-las, bem como aos ecossistemas, contanto que, em nossa avaliação, isso seja benéfico para o ser humano. Ou seja, segundo esta visão, o que define se uma ação é boa ou má, é a conseqüência que ela terá para o ser humano. Acho que é válido matar animais para a nossa sobrevivência, como o faziam os índios. Mas, apesar de matá-los, eles consideravam os animais, os rios, a terra, como seus iguais. O chefe indígena Seatle, em sua carta ao Presidente dos Estados Unidos, diz que "não podemos comprar ou vender a terra, porque ela não nos pertence; os animais, os rios, as florestas, os picos rochosos são nossos irmãos." Nós perdemos estes referenciais.
Já para a visão ecocêntrica, fazemos parte da teia da vida, estando interligados e sendo dependentes dos outros seres vivos. Não somos superiores a eles. Todos têm o mesmo direito á vida.
"O Senhor Deus formou o homem do pó da Terra" (Genesis, 2).
Em hebraico a palavra homem (adam) deriva-se da palavra terra (adamá). Esta frase nos lembra que somos iguais a todas as criaturas criadas por Deus. Todos somos formados pelas mesmas substâncias. As moléculas e átomos que formam as pedras, o solo, as plantas e os animais, são as mesmas que nos formam. Temos o mesmo destino que todos eles. Do pó viemos e para o pó voltaremos. Ela nos chama à humildade, nos coloca lado a lado com toda a criação.
"Do Senhor é a terra e tudo o que ela contém, o universo e todos os seres que nele habitam" (Salmo 24).
"A terra não será vendida em caráter perpétuo, pois a terra é Minha e vós sois peregrinos e hóspedes meus" (Levítico, 25: 23).
Além da já citada visão ecocêntrica, estas frases nos remetem à questão central que a justiça social ocupa dentro do Judaísmo. Elas nos lembram que não podemos nos apropriar da natureza, ela não nos pertence. Nada é permanentemente nosso. Apenas nos é emprestado durante a nossa vida.
2. Comentários que indicam a reverência e respeito que devemos ter frente à natureza e dão sacralidade à mesma.
Indicam, ainda, como devemos nos sentir agradecidos com o privilégio de usufruir das belezas e fontes de vida que ela nos oferece ou nos mostram como devemos ter compaixão pelos animais.
"Se estiveres plantando uma oliveira e te anunciarem a vinda do Messias, termina primeiro de plantar a oliveira e só depois vai recebê-lo". (Rabi Yohanan Ben Zakai).
A Torá nos orienta para a menção de bençãos quando sentimos o aroma de uma flor, quando nos deparamos com uma árvore em flor, quando contemplamos uma montanha majestosa, quando vemos um arco-iris, etc...
"As árvores e plantas têm sentimentos" (Baal Shem Tov).
"Quando encontrares algum ninho de passarinho diante de ti, com passarinhos ou ovos e a mãe posta sobre os ovos, não tomarás a mãe estando com os filhos. Mas deixarás ir livremente a mãe, e os filhos poderás tomar para ti, a fim de que te seja bem e prolongues os teus dias (Deuteronômio 22:6,7).
3. Trechos que nos orientam sobre questões técnicas de manejo e conservação do solo e das reservas hídricas do mesmo.
"Quando entrardes na terra que vos dou, então a terra guardará um sábado. Seis anos semearás o teu campo e seis anos podarás a tua vinha a colherá teus frutos. Porém no sétimo ano haverá sabado de descanso solena para a terra. Não semearás teu campo nem podarás a tua vinha"(Levítico 25:1,2,3, 4).
"Quando conquistares uma cidade, não destruas suas árvores, porque delas comerás. Mas as árvores cujos frutos souberes que não se comem, poderás cortar e construirás baluarte contra a cidade que fizer luta contra" (Deuteronômio 20:19,20).
Se considerarmos as necessidades atuais de conservação e recuperação da biodiversidade, este mandamento para a conservação não é suficiente ou satisfatório. Se nos transportarmos para os tempos bíblicos, porém, nos quais as florestas ainda cobriam vastas regiões na Terra, este tipo de preocupação poderia ser considerado avançado e evoluído.
4. Frases que podem ter interpretações diferentes e que poderiam validar uma visão antropocêntrica de dominação e até destruição da natureza.
Poderiam, também, oferecer uma interpretação de que o Homem tem a responsabilidade e o dever de cuidar e preservar a natureza, e utilizar estes bens de forma a garantir a perpetuação de todas as espécies na Terra. Aqui precisamos utilizar o princípio do livre arbítrio que nos é dado pelo judaísmo. Qual é a sua interpretação?
"O Senhor colocou o homem no Jardim do Eden para cultivar o solo e o guardar" (Gênesis 2:15).
"Enchei a terra e dominai-a. Submetei os peixes do mar, as aves do céu e todo animal que rasteja sobre a terra" (Gênesis, 1:28).
Gostaria de finalizar este artigo, transcrevendo uma citação do Rabino Avraham Yitzhak Kook, rabino chefe de Israel, na década de 20. Esta citação mostra a direção que deve ser dada à evolução humana e, a meu ver, encaixa-se muito bem no tema abordado:
"Um homem canta a cantiga de sua própria alma e isto já o satisfaz. Outro transcende sua individualidade e canta a canção do seu povo. Um terceiro abraça todos os povos e canta o cântico da humanidade. E um quarto se eleva ainda mais alto, unindo-se ao universo inteiro, a todas as criaturas e todos os mundos, com toda a Criação ele canta".
Marcia Gil Knobel, uma sócia da Comunidade Shalom, é bióloga, ecóloga e especialista em Gestão Ambiental.
Márcia Gil Knobel
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