A Tzedaká Salva Deus
“Deus também está nos detalhes. Como nos ensina a Cabala, não é suficiente entrar na nuvem de Deus-inconsciente por palavras somente. Precisamos fazer coisas especiais para honrá-lo, porque, sem nossas ações, Deus morre (que eu saiba Deus é imortal).
Na virada do último século, no lado leste de Manhattan, uma família de quatro pessoas vive em um apartamento de um dormitório na Rua Ludlow. O dia todo, até de noite, a mãe e o pai trabalham muito em uma fábrica.
Todas as sextas-feiras, entretanto a mesa é posta para a refeição de Shabat. Sua filha, Sara, e seu irmão vão ao serviço religioso com o pai e todo Shabat Papai traz para casa um convidado para compartilhar a refeição de Shabat.
Sara sabe que eles não têm muito o que comer e que a presença de um convidado significa menos comida para cada um. "!Por que, papai?" pergunta.
"Está escrito a tzedaká salva da morte" seu pai responde.
Um dia papai veio do trabalho sozinho. "Mamãe está doente" disse.
Por muitos longos dias papai vai todas as noites para os dois pavilhões que servem como hospital para as família da Rua Ludlow. Quando chega a noite de Shabat, Sara leva seu irmão ao serviço religioso. Ela não sabe, mas ao anoitecer sua mãe dá seu último suspiro.
Sara, obediente, traz para casa um convidado para a refeição de Shabat que ela preparou. Muito depois do convidado ter ido embora e Sarah e seu irmão terem ido dormir, ela acorda e vê seu pai chorando, sentado num canto do quarto. Sara vem e se senta em seu colo. "Não se preocupe, papai", diz ela. "Mamãe vai ficar melhor".
Ele olha para ela sem expressão. "O que você quer dizer?"
"Mamãe vai ficar bem", Sara diz. "Fui ao serviço religioso, papai, e trouxe para casa um convidado para a refeição de Shabat, e você sempre me disse que a tzedaká salva da morte".
Papai sorri tristemente. "Minha pequenina, você não entendeu. A tzedaká não salva mamãe da morte. A tzedaká salva Deus da morte".
Erich Fromm falou sobre a morte por solidão que todos nós podemos sofrer. Assim também acontece com a solidão divina. Deus morre um pouquinho quando somos incapazes de recebê-lo.
Não podemos receber Deus porque Ele é tão irreconhecível! Tentar recebê-lo é como tentar colocar o mar todo em uma concha.
Podemos conhecer e honrar Deus. Podemos mesmo sussurrar "você nunca sabe" com toda a harmonia de nossa alma. Mas como seres finitos podem receber totalmente o infinito?
Então, o que podemos fazer?
Podemos levar flores para Deus.
Ou seja, criar atos espontâneos e premeditados de gentileza, pequenos e grandes atos de tzedaká, que trazem divindade à vida em detalhes.
Meir Ibn Gabbai, um dos cabalistas mais importantes do século XVI, introduziu um termo crítico à consciência cabalista: avoda tzorech gavoha, "Deus precisa do nosso serviço".
Como Deus poderia precisar do nosso serviço? Como a tzedaká pode salvar Deus da morte?
O que poderia significar? Significa que Deus recebe nosso serviço. Dizer "preciso de você" é abrir-se para receber uma oferenda. O maior presente que você pode dar para uma pessoa que lhe é importante é receber um ato de amor.
Lembro-me de uma mulher de quase 100 anos que encontrei em Jerusalém que permitia que seu marido lhe amarrasse os sapatos. Neste pequeno ato de servir, ele a recebia. Ela o recebia aceitando seu serviço. "A tzedaká salva Deus da morte" significa que nosso ato de dar é nosso ato de receber alimenta a alma divina.
"Deus precisa de nosso serviço" significa que Deus aceita e assim dá, firmando nossa adequação humana, dignidade e valor.
Cada vez que abrimos nosso bolso e nosso coração, contribuindo com Tzedaká para nossa Comunidade Shalom, estamos criando atos premeditados de gentileza, que trazem divindade à nossa vida e nos ajudam como indivíduos e como comunidade a tornar grandes os pequenos atos de tzedaká, salvando até ao próprio Deus da morte e do esquecimento.
Shaná Tova Umevorechet
Do seu amigo e rabino Adrián
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